O trabalho de prevenção à dependência química realizado pela Igreja ganhou destaque nas últimas semanas, após o Papa Francisco citar em uma catequese o trabalho da Pastoral Latino-Americana de Acompanhamento e Prevenção de Vícios (PLAPA). Essa rede continental reúne iniciativas como a Pastoral da Sobriedade do Brasil, considerada uma experiência avançada na resposta à realidade dos vícios.

O padre Carlos Olivero, um dos promotores da Pastoral Latino-Americana de Acompanhamento e Prevenção de Vícios, concedeu entrevista ao Vatican News e contou o desejo de que a Igreja se organize como família que abraça as pessoas desnorteadas e afetadas pelo sofrimento ligado ao uso de substâncias.

Ele recorda a fala do Papa no Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas, como apelo a todos os cristãos e comunidades eclesiais para renovar seu compromisso, com a oração e o trabalho, contra as substâncias psicoativas: “Esta afirmação do Papa nos dá uma enorme alegria e nos encoraja a continuar trabalhando”.

A Rede

A PLAPA nasceu do resultado de uma reunião convocada pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), realizada virtualmente em fevereiro de 2023. Participaram do encontro representantes de mais de 40 organizações eclesiais de 13 países do continente, com o intuito de enfrentar, de modo global, as problemáticas do consumo de drogas, nas regiões mais vulneráveis ​​da América Latina e Caribe. Até então, este fenômeno era tratado de forma isolada e sem articulação.

O estatuto da rede reconhece que “a dependência constitui um problema, que afeta a todos, independentemente da diversidade de geografias e de contextos sociais, culturais, religiosos ou etários. Apesar das diferenças, queremos nos apresentar como rede: compartilhar experiências, entusiasmos e dificuldades”.

Padre Carlos destaca a necessidade de união entre as diversas iniciativas. E isso foi refletido na elaboração de um documento no qual são estabelecidas as bases do movimento. Entre os elemento na organização da comunidade, há a proposta de escolas abertas, em sintonia com o sistema preventivo de Dom Bosco, “que envolvem a vida e a acolhem”. O padre também sugere o desenvolvimento de clubes, especialmente em ambientes que precisam de oportunidades saudáveis para o tempo livre.

“Falamos de capelas, escolas e clubes como instituições, que devem ser encorajadas, para cuidar da vida, sobretudo, dos mais jovens. Nestes contextos, devem ser acompanhadas as situações de bullying e de acesso à pornografia, sobre as quais é preciso educar como dimensões da pessoa humana”, ressalta.

Trabalhos estruturados

Na entrevista, padre Carlos Olivero recorda as atividades já avançadas de algumas Conferências Episcopais na resposta às necessidades ligadas ao problema. Entre as atividades citadas, está a Pastoral da Sobriedade, aqui no Brasil, é uma ação concreta da Igreja na prevenção e recuperação da dependência química e que busca a integração entre todas as Pastorais, Movimentos, Comunidades Terapêuticas Parceiras e Casas de Recuperação. Também é citada a Comissão Pastoral Nacional das Dependências e Toxicodependências, na Argentina.

Por outro lado, pondera o padre, outros episcopados não focalizaram a questão, mas realizam iniciativas em diversas dioceses: “O importante é dizer que a Igreja está fazendo alguma coisa, pois se a resposta fosse deixada somente aos especialistas, pareceria que as nossas comunidades nada querem fazer. Porém, quando se organizam e acompanham a vida, compartilham o tempo e nutrem este vínculo social, têm muito a oferecer na defesa da vida”.

Criar espaços de escuta

A Rede de Pastoral se dedica também a ajudar os muitos jovens feridos que não encontram o sentido da vida, vivem em situações de vários sofrimentos e encontram “refúgio” nas drogas. A eles, o padre Olivero dedica uma mensagem especial:

“É muito importante buscar uma pessoa de referências para conversar, ou seja, uma pessoa amorosa, que saiba ouvir com respeito e sem julgar”.

Da mesma forma, a Rede incentiva também a criar espaços de escuta: “É importante que a pessoa, que passa por isso, não fique sozinha, não se feche, não desista. É fundamental apostar na vida, uma vida que se expressa no estudo, amizade, namoro, trabalho… Quanto mais se fechar e tiver menos relacionamentos, mais se complica. Por isso, é preciso buscar relacionamentos saudáveis, ouvir o coração, apostar na vida”.

Luiz Lopes Jr, com Vatican News