“…O coração fiel ama, adora, pede perdão e oferece-se para servir
no lugar que o Senhor, à escolha, lhe dá para O seguir.”
(Papa Francisco: Carta Encíclica Dilexit Nos, 25)

Sobre a 62ª Assembleia Geral da CNBB, partilho com vocês alguns elementos da primeira meditação feita pelo animador do Retiro dos Bispos, em Aparecida do Norte, Dom Armando Bucciol. (As leituras propostas foram Mt 10,37-42; Mc 3,33-35; Lc 17,7-10; 24,13-35; Jo 14,9; 3,6.)

Chamados ao seguimento de Jesus Cristo. Esse assunto, com certeza, os senhores trataram, muitas vezes, em suas reflexões ao povo de Deus. Todavia, é algo que sempre nos questiona. O seguimento é precedido do apelo à conversão, antes por parte de João Batista e depois de Jesus: “Convertei-vos e crede no evangelho!”

Então, como ser discípulos e discípulas que acolhem e testemunham a misericórdia, o amor, a fidelidade a partir da vocação batismal? Como viver o seguimento do Senhor Jesus? Um dia, acolhemos o chamado de Jesus a sermos missionários do Evangelho. Esse sim marcou para sempre a nossa vida. Pelo sagrado ministério fomos revestidos de um poder que é servir. Precisamos responder com renovado ardor e amor a essa vocação, que é graça e desafio. Esse chamado, observo, é, de maneira própria, para todos que nasceram da água e do Espírito Santo!

A caminho com Jesus. Nestes dias de Páscoa, nos ilumina uma página bem conhecida do evangelho de Lucas: os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Cléofas e o companheiro estavam fugindo de Jerusalém, decepcionados, tristes. A eles se aproxima um peregrino anônimo. Eles conversavam e discutiam. É conversa repleta de perguntas, emoções, lembranças e da busca de compreender o que tinha acontecido em Jerusalém.

Andavam com o rosto triste! Sonhavam com a vinda do Reino, da paz e da justiça e o fim da opressão romana. Para seguir a esse Jesus de Nazaré eles tinham deixado tudo, pela esperança que Ele tinha suscitado. Agora, a única solução era voltar à antiga rotina, recomeçar.

Mas onde estava o erro? Esse Jesus era pessoa boa, devotada aos outros, de profunda fé; tinha realizado sinais extraordinários. Só Deus poderia fazer certas coisas!

Então, se Deus não estava com Ele, onde se poderia encontrar? Será que foi puro engano? Perder a confiança em Jesus, significava ficar abalada também a fé em Deus: onde estava Deus que não moveu um dedo para vir ao encontro desse injustiçado?

 

Um encontro que transforma

Discorriam e discutiam juntos: “nós esperávamos que…” (v. 21), dizem ao desconhecido. Esquecer o passado, porém, não é possível! Enquanto recordam, os sentimentos brotam repletos de uma esperança frustrada.

O desejo de encontrar o Ressuscitado é o ponto de partida, mas Ele mesmo deve vir ao encontro. E Ele vem, se o sabemos acolher quando e como ele decidir. Precisamos, ainda, de confiança para colocar a nossa vida nas mãos do Senhor. Porém, como com os discípulos de Emaús, para reconhecê-lo, os nossos olhos precisam estar abertos. Então, bastou a Palavra e uma oração enquanto abençoava e partilhava o pão.

 

A experiência de transformação

O nosso coração não ardia…?”. Os dois discípulos não sabem que o companheiro de caminhada é Jesus. O desconhecido abre a explicação das Escrituras perguntando: Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória? (Lc 24,26). O evangelista não diz se os dois ficaram convencidos pelas suas palavras, mas refere que confessam: Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? (v. 32). A reflexão sobre a página de Lucas destaca:

  1. a) O Ressuscitado acompanha a caminhada da sua comunidade ainda de maneira disfarçada, como peregrino, nos escutando e aquecendo o nosso coração. b) Às vezes, Ele sacode a nossa dureza de coração e explica as Escrituras para que consigamos compreender sua escolha: era necessário que o Cristo sofresse. Pede-nos que escutemos a voz do Espírito. c) Então, Ele revela sua presença ao partir o Pão! Ele despedaçou-se acolhendo pecadores e prostitutas, procurando ovelhas perdidas, curando doentes e leprosos. Ele amou até o fim. Agora, manda-nos em missão para – nós também – partilhar o pão da Palavra e da nossa existência toda. Desse modo, prometeu: a vossa tristeza se transformará em alegria (Jo 16,20b).

 E para concluir, na Carta Apostólica Uma fidelidade que gera futuro (FidFu), o Papa Leão XIV escreve: “Toda vocação na Igreja nasce do encontro pessoal com Cristo, “que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus Caritas Est, do Papa Bento XVI). Antes de qualquer compromisso, de qualquer boa aspiração pessoal e de qualquer serviço, está a voz do Mestre que chama: Vem e segue-me (Mc 1,17). O Senhor da vida conhece-nos e ilumina o nosso coração com o seu olhar de amor (cf. Mc 10,21). Não se trata apenas de uma voz interior, mas de um impulso espiritual, que muitas vezes chega até nós através do exemplo de outros discípulos do Senhor e se concretiza numa corajosa opção de vida. (FidFu 5). Nossa presença aqui, agora, começou com um encontro que determinou o rumo de nossa vida.

Dom Odelir José Magri, MCCJ | Arcebispo Metropolitano de Chapecó