Prestes a completar um mês desde que as primeiras chuvas causaram deslizamentos e enxurradas no centro do Estado, outras regiões agora sofrem com as enchentes e têm os olhos no céu, já que a chuva que não para de cair.

As fortes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul desde o fim do mês de abril já afetaram 469 das 497 cidades gaúchas. O alto volume de precipitações pluviais é o grande responsável por tantos estragos, sem dúvidas, mas no caso do RS, a geografia e a disposição dos rios, do lago Guaíba e da Laguna dos Patos, favoreceu as enchentes em tantas regiões do Estado.

Para explicar melhor o que ocasionou as fortes chuvas neste tempo e porque o Rio Grande do Sul está há tantos dias sofrendo com as inundações e enchentes, conversamos com o professor de geografia e geopolítica Rodrigo dos Passos. Em entrevista (veja o vídeo completo abaixo) concedida ao assessor de comunicação do Regional Sul 4, Jaison Alves da Silva, o professor aprofunda o que ocasionou tanta chuva no RS e como a disposição dos rios, vales, lago e laguna ajuda a agravar a situação.

Afinal, por que tanta chuva?

O professor começa ressaltando que uma conjunção de fatores ocasionou este cenário trágico no RS e reforça que estes fatores são uma soma de fenômenos climáticos com a ação do homem. Ele explica que normalmente deslocam-se da Amazônia, entre janeiro e julho, verdadeiros rios voadores – grandes correntes de vapor de água, passando pela Bolívia, Paraguai, Argentina, até a região Sul do Brasil. “Quando estes rios voadores encontram, no Sul do Brasil, uma massa de ar frio, naturalmente ela vira chuva. Por isso é comum lembrarmos de grandes cheias no Sul”, comenta.

Segundo ele, o que diferenciou a situação desta vez foi que uma imensa massa de ar quente e seco no centro do país bloqueou a passagem desta massa de ar frio para o resto do Brasil, o que naturalmente distribuiria estas chuvas. “Esta massa de ar frio ficou em cima do Rio Grande do Sul durante muito tempo e transformou toda esta umidade em água, ficando literalmente estancada em cima do RS”. O professor Rodrigo acrescenta ainda que a situação foi agravada pelo El Niño caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente da superfície do Oceano Pacífico.

Uma enchente que persiste

Paróquia Sagrado Coração de Jesus – Canoas. Foto: Frei Juan Miguel Gutiérrez Méndez

Nas primeiras chuvas, entre o fim de abril e os primeiros dias de maio, o centro do Estado sofreu com as enchentes. Em seguida, os municípios às margens dos Rios Taquari, Caí, Sinos, Jacuí, Gravataí sofreram com as inundações e enxurradas, no cenário mais desolador destes dias. Estes vales canalizaram todas as águas com muita força, já que receberam o equivalente a dois ou três meses de chuvas, explica o professor.

Para compreender melhor o cenário, é importante ressaltar que o curso destes rios tem como destino um único local: o Lago Guaíba, em Porto Alegre, o que fez com que os níveis de água chegassem, no centro da Capital, a 5,30mt, quando a cota de inundação é de 3mt no centro e de 2,1mt nas ilhas da região metropolitana.

Rumo ao Oceano Atlântico

Depois que sai do lago guaíba, todo o volume de água ainda passa pela Laguna dos Patos, para depois desaguar, finalmente, no Oceano Atlântico, em Rio Grande. Neste sentido, o cenário, que já era desfavorável com a geografia muito plana da região, que não favorece o escoamento, piora ainda mais com os ventos contrários que não favorecem a saída da água para o mar.

 

Situação Atual

Após alguns dias de trégua, a chuva voltou a Porto Alegre nesta quinta-feira (23) e acendeu novamente o alerta para possíveis enchentes e alagamentos na capital gaúcha. De modo geral, as pessoas já estavam em mobilização para limpar e retornar às suas casas. O comércio, no centro, uma das regiões mais afetadas, retoma aos poucos, com o retorno de água e luz.

Hoje, algumas cidades da região metropolitana ainda sofrem com as inundações – entre elas Eldorado do Sul, Canoas e alguns Bairros das zonas Sul e Norte de Porto Alegre. Quem também vê o aumento das águas e está em alerta nestes dias é a região banhada pela Laguna dos Patos, mais ao Sul do Estado, especialmente os municípios de Pelotas, São Lourenço do Sul, Rio Grande e São José do Norte.

último Boletim da Defesa Civil, das 9h desta sexta-feira (24), aponta 806 feridos, 65 desaparecidos e 163 óbitos confirmados. Nestes dias, foram resgatadas 82.666 pessoas em todo o Estado e quase 2,5 milhões de pessoas foram afetadas pelas consequências da chuva no extremo Sul do país.

Confira abaixo a entrevista completa do professor Rodrigo dos Passos:

Por Victória Holzbach – CNBB Sul 3