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A Pastoral Carcerária, no Brasil, celebra neste ano de 2022 o seu jubileu de ouro. São 50 anos de constantes visitas ao cárcere, presença da Igreja na visita ao Jesus encarcerado, sempre ao lado dos presos, familiares e organizações parceiras na luta por um mundo sem cárceres, percebendo as agonias, dores e sofrimentos da população mais marginalizada do país: escutando o grito das “periferias existenciais”.

Para marcar a celebração dos 50 anos, a Pastoral está organizando uma romaria em Aparecida do Norte/SP, dia 28 de agosto, no Santuário Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Padre Almir José Ramos, vice-coordenador nacional da Pastoral Carcerária, escreve no texto abaixo sobre a vocação do agente da Pastoral Carcerária.

 

A vocação do agente da Pastoral Carcerária.

Estamos no mês vocacional. Por isso, vamos refletir um pouco sobre a vocação e a missão das pessoas que doam as suas vidas em prol de muitos homens e mulheres que se encontram em situação de privação de liberdade. Do interior das galerias, das celas escuras e com mau cheiro ressoam vozes e gemidos de seres humanos que, no dizer de Santa Tereza de Calcutá, vivem nos porões da humanidade. Parafraseando o texto do Servo Sofredor de Isaias (Is 52.13-53.12), essas pessoas perderam toda a sua aparência humana e já não conseguem atrair o olhar de ninguém. São homens e mulheres marcados pela dor e pelo sofrimento. Não estamos falando aqui de sofrimento físico, que também acontece, mas de sofrimento psicológico, permeado pela exclusão e discriminação. É para esse grupo de pessoas, que no Brasil ultrapassam os 700 mil, que os agentes da Pastoral Carcerária doam a vida, fazendo-a missão e vocação.

A partir dos documentos da Igreja, mas sobretudo nas falas do Papa Francisco, ouvimos cada vez mais o convite e o apelo para sermos uma Igreja em saída. À luz do Evangelho e dos documentos da Igreja, principalmente Aparecida, Francisco nos convida a sair de nossas seguranças, ou seja, a segurança que a sacristia nos dá e irmos em direção as periferias existenciais.

No âmbito da Pastoral Carcerária, podemos dizer que somos eminentemente uma pastoral em saída. Para irmos ao encontro dos destinatários de nossa missão, precisamos sair. A primeira condição é sair fisicamente, pois normalmente as unidades prisionais estão situadas fora dos perímetros urbanos e longe das paróquias. Também precisamos sair de nós mesmos, dos nossos apegos, das nossas seguranças, das nossas certezas. Precisamos superar preconceitos, quebrar paradigmas. Para desempenhar bem a missão de Agente da Pastoral Carcerária é preciso sobretudo de uma conversão pessoal e pastoral.

Para ser um agente da Pastoral Carcerária, é necessário que a pessoa seja chamada. Este chamado parte do Senhor, o Deus da vida e da história que caminha com seu povo e sempre chama homens e mulheres para segui-lo. Assim aconteceu com Abraão que, ouvindo o chamado de Deus, deixou a sua terra e partiu para um lugar distante. Também Moisés ouve a voz do Senhor que o convida a empenhar-se para libertar seu povo que vivia na escravidão do Egito. Assim aconteceu com os profetas e profetisas, com Maria, com os santos e santas de ontem e de hoje. Aconteceu também com os mártires, homens e mulheres, que deram a vida derramando seu sangue pela causa do Reino. O chamado parte de Deus, a resposta depende de cada pessoa. Porém, todos somos livres para responder ao chamado do Senhor.

No contexto da Pastoral Carcerária é imprescindível muita oração e reflexão, pois trata-se de uma missão exigente e desafiadora. É uma pastoral de fronteira. Os agentes da Pastoral Carcerária vão ao encontro da ovelha perdida com o intuito de arrebatá-la e trazê-la de volta ao redil. Os agentes da Pastoral Carcerária são convidados a ser uma Igreja, no dizer do Papa Francisco, enlameada porque sai pelas estradas. Estradas essas que muitas vezes são formadas pelas galerias das unidades prisionais. O agente da Pastoral Carcerária é convidado a ir até a última cela, o castigo, o seguro, a enfermaria. Nesses espaços os agentes vão procurar aqueles que vivem amontoados em condições sub-humanas nos presídios superlotados. Indo ao encontro desses que muitas vezes perderam toda a sua aparência humana e já não interessa a quase ninguém, a Pastoral Carcerária deve assumir sua vocação profética. Não é possível encontrar tanta desumanidade e ficar calado. O profetismo juntamente com o anúncio da Palavra de Deus são os dois grandes pilares que sustenta a missão e dão sentido a vocação do agente da Pastoral Carcerária.

Para ser um agente da Pastoral carcerária não basta somente boa vontade. É fundamental um bom preparo nas áreas teológicas, eclesiológicas e sobretudo jurídica, pois os presos vão trazer suas demandas e nós não podemos ficar calados. O agente da pastoral carcerária é sobretudo uma pessoa inquieta. Essa inquietação parte da realidade do sistema prisional. Sendo um sistema cruel e degradante, nossa voz profética deve ressoar muito além do interior dos presídios. Nossa voz deve ressoar dentro dos fóruns, das Igrejas, dos centros de direitos humanos e tantos outros lugares e espaço de direitos e cidadania.

Por isso, a vocação do agente da Pastoral Carcerária apresenta a beleza do chamado de Deus e a paixão pela vida onde ela é negada. Para ser um membro dessa pastoral também é preciso um encantamento pela vida e uma dose bem grande de esperança. Atuar na Pastoral Carcerária é sobretudo viver em busca do sonho de Deus, perseguindo uma utopia, de que um dia a humanidade, ao olhar para trás, somente ouvirá falar em um período triste e cruel de sua história, onde homens e mulheres viveram encarcerados em condições degradantes. Essa utopia nos dá a luz para viver e lutar. É uma utopia possível, mesmo parecendo contraditória ao sistema vigente. O sonho de Deus é o mundo sem cárceres!

 

Segue vídeo de membros da Pastoral Carcerária em Santa Catarina, na qual, abordam um pouco do trabalho que é realizado dentro do estado.

 

Por CNBB Sul 4 – Artigo Pe. Almir José Ramos | Fotos: Jaison Alves da Silva