O mundo de hoje nos deixa perplexos em razão das terríveis contradições que encontramos presentes em nossa sociedade. Avanços esplêndidos nas áreas do mundo digital que influenciam diretamente em todos os setores. A inteligência artificial torna-se a senhora que, mais que facilitar a vida humana, a substitui gradativamente, com todas as possíveis boas e más consequências, dependendo do uso que lhe é atribuída. E assim, poderíamos ainda descortinar uma série de situações que passam das pessoas bilionárias às que passam fome, das organizações que socorrem às pessoas das guerras que as matam. Mas, neste artigo, detenho-me em princípios que defendem a vida humana, com ênfase na defesa do nascituro, recordado no dia 8 de outubro, em que a Igreja promove ações de conscientização de sua dignidade no útero materno.

Sintetizando várias declarações do Magistério (Pio XII, João XXIII, Concílio Vaticano II e João Paulo II), a Instrução sobre o respeito à vida nascente e a dignidade da procriação, CDF, 1987, n. 5, afirma que “desde o momento da concepção, a vida de todo ser humano deve ser respeitada de modo absoluto, porque o homem é, na terra, a única criatura que Deus « quis por si mesma », e a alma espiritual de cada um dos homens é « imediatamente criada » por Deus; todo o seu ser traz a imagem do Criador. A vida humana é sagrada porque desde o seu início comporta « a ação criadora de Deus » e permanece para sempre em uma relação especial com o Criador, seu único fim. Somente Deus é o Senhor da vida, desde o seu início até o seu fim: ninguém, em nenhuma circunstância, pode reivindicar para si o direito de destruir diretamente um ser humano inocente”.

É nossa responsabilidade de cristãos defender a vida do nascituro sempre. Por mais que legislações civis queiram aprovar o aborto ou o aprovem, não temos o direito de ignorar que a vida deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção, exatamente isto, desde o primeiro momento de sua existência! Já é um ser humano e não apenas algo indefinido. É ilógico entender que apenas após alguns dias ou semanas torne-se pessoa. O embrião tem direito de pessoa, e obviamente o direito inviolável de nascer. Some-se a tudo isso, o fato de que é um ser inocente. Qual foi a sua culpa para ser eliminado?

São frágeis os argumentos usados a favor do aborto, tais como: a proibição de abortar fere direitos fundamentais das mulheres, como os direitos à autodeterminação pessoal, à liberdade e à intimidade; o aborto deve ser tratado como questão de saúde pública; somente os nascidos são garantidos pela constituição brasileira… igualmente é frágil e falso o argumento de que a mulher tem direito sobre o seu corpo e, portanto, o direito de eliminar um embrião. Um embrião não se confunde com o corpo da mulher assim como um astronauta não se confunde com a cápsula espacial que o abriga. O embrião precisa do útero materno para seu desenvolvimento e proteção, mas não é propriedade da mulher que o abriga.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, afirmou que entre os “seres frágeis, de que a Igreja quer cuidar com predileção, estão também os nascituros, os mais inermes e inocentes de todos, a quem hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que apetece, tirando-lhes a vida e promovendo legislações para que ninguém o possa impedir. Muitas vezes, para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e, no entanto, esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano. Supõe a convicção de que um ser humano é sempre sagrado e inviolável, em qualquer situação e em cada etapa do seu desenvolvimento. É fim em si mesmo, e nunca um meio para resolver outras dificuldades. Se cai esta convicção, não restam fundamentos sólidos e permanentes para a defesa dos direitos humanos, que ficariam sempre sujeitos às conveniências contingentes dos poderosos de turno”. (EG, 213).

 

Por Dom Francisco Carlos Bach, bispo da Diocese de Joinville (SC) | Foto capa: Jr Schmitt - Modelo: Aretusa Dias