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Vinde ver! Comunicar encontrando as pessoas como e onde estão

Por dom Francisco Carlos Bach – Bispo de Joinville

Na solenidade litúrgica da Ascensão do Senhor, que, neste ano, ocorre no dia 16 de maio, celebra-se o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais (DMCS). Em sua costumeira mensagem, em vista deste evento, o Papa Francisco nos convida a refletir sobre um tema que merece destaque neste tempo de pandemia que vivemos, com as dificuldades pessoais e sociais que antevemos: “Comunicar, encontrando as pessoas como são e onde estão”. Num primeiro momento a mensagem papal dirige-se aos comunicadores, mas como aconteceu ao longo de todas as mensagens, elas ultrapassam tal contexto e dirigem-se para toda a sociedade. Friso que não é uma mensagem apenas para os cristãos católicos, mas para todos os homens e mulheres de boa vontade.
O Papa relembra-nos o texto do evangelista São João (1,46) que relata a resposta de Filipe à provocadora pergunta de Natanael, cheia de ironia e curiosidade sobre Jesus de Nazaré. Após Filipe ter dito que encontrou Jesus, Natanael perguntou se de Nazaré poderia sair algo de bom. Filipe nem negou e nem afirmou, mas o convidou para ir ao encontro do Mestre. E tal encontro transformou a vida de Natanael. É necessário ultrapassar as meras suposições e ir ao encontro da verdade dos fatos.
A comunicação autêntica não se encontra a serviço de grupos ou de ideologias, mas da verdade em si mesma, obtida com métodos e critérios objetivos. Transparência e honestidade, diz a mensagem, são fundamentais “tanto na redação de um jornal como no mundo da web, tanto na pregação comum da Igreja como na comunicação política ou social”.  O texto papal é claro: “O convite a «ir e ver», que acompanha os primeiros e comovedores encontros de Jesus com os discípulos, é também o método de toda a comunicação humana autêntica. Para poder contar a verdade da vida que se faz história (cf. Mensagem para o LIV Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24 de janeiro de 2020), é necessário sair da presunção cômoda do “já sabido” e mover-se, ir ver, estar com as pessoas, ouvi-las, recolher as sugestões da realidade, que nunca deixará de nos surpreender em algum dos seus aspectos”.
O diálogo entre as pessoas é fundamental, desde que ambas as partes estejam interessadas na busca da verdade e cientes do necessário respeito mútuo. A verdade não é fruto de uma palavra proferida aos gritos ou dita por quem se encontra numa posição social mais elevada. Buscar a verdade é exigente e pressupõe a humildade dos interlocutores. Não são suficientes as inovações tecnológicas para ir ao encontro da verdade. Obviamente os meios de comunicação são instrumentos que amplificam, mas cabe ao comunicador ter a sagacidade e a coragem de ir ao encontro dos fatos e das pessoas como elas são e onde elas estão. Criar uma cultura de paz, diálogo e fraterna solidariedade é missão da verdadeira comunicação.
Qual será o método mais simples para se conhecer uma realidade? Segundo o Papa Francisco, é o método “vem e verás”, pois “é a verificação mais honesta de qualquer anúncio, porque, para conhecer, é preciso encontrar, permitir à pessoa que tenho à minha frente que me fale, deixar que o seu testemunho chegue até mim”. Tal princípio produziria muitos bons frutos, ao invés de afirmações tempestivas sem conhecimento de causa. Jesus Cristo é o grande modelo do comunicador: “… a eficácia daquilo que dizia era inseparável do seu olhar, das suas atitudes e até dos seus silêncios. Os discípulos não só ouviam as suas palavras, mas viam-no falar”.
O Santo Padre reconhece e agradece aos comunicadores: “Temos que agradecer à coragem e determinação de tantos profissionais (jornalistas, operadores de câmara, editores, cineastas que trabalham muitas vezes sob grandes riscos), se hoje conhecemos, por exemplo, a difícil condição das minorias perseguidas em várias partes do mundo, se muitos abusos e injustiças contra os pobres e contra a criação foram denunciados, se muitas guerras esquecidas foram noticiadas. Seria uma perda não só para a informação, mas também para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes: um empobrecimento para a nossa humanidade”.
A conclusão da mensagem vem em forma de oração: “Senhor, ensinai-nos a sair de nós mesmos, e partir à procura da verdade. Ensinai-nos a ir e ver, ensinai-nos a ouvir, a não cultivar preconceitos, a não tirar conclusões precipitadas. Ensinai-nos a ir aonde não vai ninguém, a reservar tempo para compreender, a prestar atenção ao essencial, a não nos distrairmos com o supérfluo, a distinguir entre a aparência enganadora e a verdade. Concedei-nos a graça de reconhecer as vossas moradas no mundo e a honestidade de contar o que vimos”.