A Quaresma é o retiro espiritual de quarenta dias da Igreja, um tempo favorável para intensificar a vigilância e a oração. A quaresma não é um tempo de tristeza, mas um tempo de transfiguração. É a faxina espiritual necessária para que a alegria da Páscoa possa brilhar intensamente.
É tempo de estar atento para não ser pego de surpresa pelo desânimo ou pela tentação. Na Quaresma, a vigilância se volta para o interior dos pensamentos, vigiar os Pensamentos: Identificar onde o coração está se apegando (mágoas, vaidades e excessos). Vigiar os sentidos: em um mundo cheio de barulho e telas, a vigilância quaresmal pede o jejum dos olhos e dos ouvidos, filtrando o que nos afasta da paz de Deus. Vigiar a Língua: evitar a fofoca e o julgamento, transformando o silêncio em espaço para Deus falar.
Se a vigilância nos protege do mal, a oração nos preenche com o bem. Na quaresma, a oração deve ser relacional, não apenas ritual: Não se trata de rezar mais coisas, mas de rezar com mais coração, conversando com Jesus no deserto da nossa alma. A escuta da Palavra, a vigilância nos prepara para ouvir o que Deus nos diz através das escrituras. O equilíbrio: Jesus disse no Getsêmani: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mt 26,41). Sem oração, a vigilância gera orgulho e autossuficiência; sem vigilância, a oração torna-se distração e não transforma a vida.
As imagens do deserto (lugar de luta e silêncio) e da montanha (lugar da transfiguração) nos ajudam a viver este tempo com profundidade. Somos chamados a entrar no deserto com Jesus para vencer as tentações do poder, do ter e do prazer. Mas o objetivo final é subir o monte tabor com Ele, para sermos renovados. A Quaresma é o tempo de tirar as máscaras para que apareça a nossa face de filhos de Deus.
A quaresma é tempo terapêutico, o pecado é uma doença que nos isola; as práticas quaresmais são os remédios; o diagnóstico: identificar os ídolos que ocupam o lugar de Deus em nosso coração. A cura está no retorno à Palavra de Deus e à confissão. O jejum que agrada a Deus não é apenas o de alimentos, o jejum de alimentos é apenas um meio. O verdadeiro jejum é o da língua (parar de criticar), o do ego (diminuir o “eu” para que o “nós” apareça) e o da indiferença (não ser cego ao sofrimento dos irmãos).
O jejum e a esmola como descentramento, eles nos ajudam a ir contra a autorreferencialidade. O centro é Deus, não nós. O jejum é um gesto para despertar a alma e lembrar que não vivemos só de pão. Deve sempre beneficiar o próximo. A esmola não é apenas dar uma moeda, mas olhar nos olhos e tocar a carne de quem sofre.
Dicas Práticas para este Tempo:
- O deserto diário: reserve 15 minutos de silêncio absoluto. Vigie sua agitação, silencie o barulho do mundo e entregue-se ao Espírito através da oração.
- O exame de consciência: ao final do dia, faça uma vigilante retrospectiva. Onde caí? Onde Deus esteve no meu dia? Peça perdão e agradeça.
- Oração de Jaculatória: Repita frases curtas como: “Senhor Tende misericórdia de mim que sou pecador”, “Jesus, ensina-me a amar como Tu”. Isso mantém a mente vigilante.
- Mudança de mentalidade: em vez de apenas tirar o chocolate, faça um jejum de palavras negativas e uma esmola de tempo, visitando alguém solitário e oferecendo um pouco de atenção a um idoso ou a um enfermo.
Gesto Concreto: Campanha da Fraternidade 2026. Tema: Fraternidade e Moradia Quando o Verbo de Deus se faz moradia, a dignidade humana torna-se missão. Nesta Quaresma, somos convidados a olhar para as condições de habitação em nossa comunidade. Muitas famílias vivem sem o mínimo de dignidade: sem moradia, casas precárias, sem saneamento ou conforto básico. Para refletir e agir: O que você e sua comunidade podem fazer, de forma concreta, para ajudar uma família em condições indignas de moradia? A fé sem obras é morta; que nossa conversão quaresmal nos conceda um coração contrito e humilde, capaz de olhar sempre para o irmão (a) com o olhar de amor de Cristo.
Dom Adalberto Donadelli Jr - Bispo da Diocese de Rio do Sul


