A Quaresma é o período litúrgico em que, por meio da oração, do jejum, de abstinências e sacrifícios de modo geral, nós nos exercitamos em vista à conversão e intensificação de nossa vida cristã. Considerando que somos seres que convivemos em família, em comunidade, em sociedade, nossa conversão não pode limitar-se a aspectos somente pessoais e intimistas; temos que nos converter em todos os aspectos de nossa vida e relações.
Por isso, além de nossa conversão pessoal, também precisamos nos converter, ou seja, reorientar nossas relações comunitárias e sociais segundo a vontade de Deus. É nesse sentido que, a cada ano durante a Quaresma e a Campanha da Fraternidade, a Igreja nos propõe um aspecto muito concreto em função do qual nos questionamos e, como cristãos, buscamos aperfeiçoar as nossas relações comunitárias e sociais. Com isso, queremos expressar que o Evangelho não pode incidir somente em nosso foro íntimo, mas também sobre nossa maneira de conviver com os outros e com o mundo onde convivemos o dia a dia de nossa vida.
Neste ano, somos convidados a refletir a Fraternidade e Moradia, iluminada pelo texto evangélico: “Ele veio morar entre nós” (Jo ,14). O objetivo central enfoca dentro do espírito de conversão quaresmal, a necessidade de responder ao grave desafio social de fazer acontecer e garantir o direito à moradia digna, junto aos demais bens e serviços essenciais a toda população.
Os objetivos específicos aprofundam esse olhar e destacam a consideração, as raízes históricas e as causas de moradia precária ou mesmo a carência de teto que faz sofrer a milhões de brasileiros.
A falta de políticas públicas sistemáticas e eficientes e iniciativas da sociedade civil para promover soluções de habitação popular digna e decente para os que carecem de teto. O conhecimento e aplicação transformadora do ensino social da Igreja para fazer valer o lema: “nenhuma família sem teto, trabalho e terra”.
O fortalecimento das pastorais sociais em especial da Pastoral da Moradia e das Favelas intensificando a presença e o compromisso social libertador que envolve, evangeliza e empodera aos excluídos.
Junto aos movimentos sociais, ambientais, a sociedade civil como um todo, que consigamos inspirar e lutar pela aprovação de leis municipais, estaduais e federais que impulsionem a construção de moradias populares, garantindo o direito de ser cidade para todos(as).
É importante como afirma Fábio Paes Coordenador da Revista Casa comum, que sem lar não há Casa Comum e que empenhar-se em efetivar direito à moradia digna do povo, é defender a Terra, o equilíbrio ambiental e a saúde do planeta, pois não há ecologia integral sem ecologia humana, sem proteger a família e seu desenvolvimento.
O direito à moradia é a entrada de todos os direitos, a política social prioritária e fundamental, uma vez que sem ela não teremos uma cidade justa, fraterna e equitativa. Torna-se necessário nesta caminhada de conversão quaresmal que nos leva amar ao próximo com ternura e compaixão, comprometer-nos a nível pessoal, comunitário e social com os irmãos e irmãs que carecem de habitação, moradia digna, espaço para conviver como família.
“Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão” é o título da mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026. O Pontífice convida os fiéis a um “jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro”.
Um jejum de palavras ofensivas: esta é a principal proposta do Papa Leão XIV aos fiéis que se preparam para viver a Quaresma, “tempo em que a Igreja nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida”.
Para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano, o Pontífice recorda que é preciso empreender o caminho de conversão, que começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito.
Por Dom Odelir José Magri, MCCJ | Arcebispo de Metropolitano de Chapecó


