Na medida em que nos aproximamos da “Paixão e Morte de Jesus de Nazaré”, temos que olhar bem a linguagem que usamos.

Quando tratamos das violências contra pessoas, especialmente em nossas liturgias, gostamos de usar “eufemismos”. Eufemismo é uma linguagem que suaviza expressões mais fortes, cruéis, chocantes e ofensivas.

Assim, é em relação ao julgamento, à paixão e “morte” de Jesus de Nazaré.

Quando digo “paixão” de Jesus de Nazaré, quase desaparece seu significado real e cruel de tormento e agonia extremos, a ponto de suar sangue, sofrimento, padecimento, martírio. Então dizer, especialmente para as crianças, paixão de Cristo, se suaviza e esconde tudo o que Jesus humano, de fato, sofreu.

Quando digo que alguém morreu, é bem mais suave do que se for usar e dizer em público, e ainda mais em celebração religiosa, que uma pessoa foi torturada e assassinada pelo poder religioso e estatal.

Jesus foi assassinado, porque que outro nome se pode dar para quem é morto no suplício da cruz, de modo muito cruel, depois de um “julgamento” forjado, mentiroso, sem defesa, e que, antes da morte, foi flagelado, cuspido, injuriado, ofendido e coroado de espinhos?

Dizer: Jesus morreu na cruz tira toda a força e crueldade do que realmente aconteceu. Quando digo “morreu”, parece que tenha sido por uma morte quase natural. Em vários textos dos Evangelhos se diz que os sumos sacerdotes, os doutores da Lei, os saduceus, enfim, o Sinédrio, há tempos já se reuniam para planejar como eliminar, matar – assassinar – Jesus de Nazaré.

Então, a morte de Jesus não foi um acidente por ele ter caído de um jegue, de camelo ou em decorrência de alguma doença grave, talvez até incurável. Na cruz, é claríssimo que é assassinato, mas preferimos o eufemismo, “morreu”, que apazigua nossa consciência e não ofende nossos ouvidos, nem nos compromete em denunciar todas as violências, especialmente as praticadas “em nome de Deus ou de uma religião”.

O sistema do poder político e econômico “assassina” sem dó nem piedade, e os comandantes até recebem flores, homenagens, nomes na história e, alguns, tentam “comprar” o título de “Nobel da Paz”.

Quem mata uma ou duas pessoas é assassino; quem assassina milhares, a maioria inocentes e indefesas, facilmente passa para a história como “herói nacional”.

Como entender povos e nações cristãs, do judaísmo ou islamismo, onde seus chefes assassinos mantêm mais de 50 a 60% do povo que os aplaude, apoia esses assassinos que comandam e executam essas guerras onde a vida humana vale menos que um litro de petróleo ou uma saca de minério raro?

Em nossas Igrejas, é escândalo dar a comunhão, se aceitar como padrinho de batismo uma “mãe solo” ou uma pessoa que está em segunda união, mas não se questiona quem apoia ou fica neutro diante da barbárie assassina e do banho de sangue que encharca a terra.

Chega de eufemismos farisaicos.

Dom Guilherme Antonio Werlang, MSF | Bispo Emérito da Diocese de Lages