Dom Guilherme Werlang reflete em artigo o “Dia da Consciência Negra”

“VÓS SOIS TODOS IRMÃOS” Mt 23,8b)

“UM SÓ É VOSSO PAI, AQUELE QUE ESTÁ NOS CÉUS” Mt 23,9b)

Em nosso calendário, hoje fazemos MEMÓRIA de uma das datas mais importantes da NAÇÃO brasileira, DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA.

No meu entendimento, este dia é muito mais importante que o dia da “abolição da escravatura” (13 de maio de 1888), que olhando com senso crítico e justiça social, não passa de UMA GRANDE FARSA e um JOGO POLÍTICO para ficar bem na “fotografia” diante das outras nações. Temos que lembrar que o Brasil foi o ÚLTIMO país da América Latina a “abolir” a escravidão. Na verdade, a abolição não aconteceu por considerar a DIGNIDADE HUMANA E OS DIREITOS IGUAIS DOS NEGROS, mas porque, manter a escravidão, significava PERDAS ECONÔMICAS E POLÍTICAS, tanto para o ainda IMPÉRIO (a proclamação da República só aconteceu aos 15 de novembro de 1889), quanto especialmente para OS DONOS DOS ESCRAVOS. A ESCRAVIDÃO já era um grande peso e prejuízo, então os NEGROS e as NEGRAS passaram para uma degradação ainda maior, viraram um grande LIXO SOCIAL. Matar em massa não podiam, devolver para a mãe África, seria impossível. Havia em todo o mundo uma pressão muito grande sobre a COROA DO IMPÉRIO BRASILEIRO. Então a abolição foi a única solução, mas jogando-os à própria sorte, que de SORTE não tinha nada.

Na LEI ÁUREA de 1888 que diante das nações e diante do Brasil Império “fez” a libertação das pessoas escravizadas, NÃO INCLUIU GARANTIA DE EMPREGO, TRABALHO, PROPRIEDADE, SAÚDE E EDUCAÇÃO IGUAL PARA OS LIVRES, MAS NEGROS E EX ESCRAVOS. Que LIBERTAÇÃO É ESSA, ENTÃO?

A Constituição de 1824 garantia a educação para TODOS os cidadãos, mas era uma lei para “inglês ver” porque não se aplicaria na prática. Como ter acesso à educação dos filhos sem recursos e políticas públicas para tal?

Em relação às condições para obter propriedades de terra, a situação foi e permanece até hoje, ainda mais cruel, porque em 1850, a “Lei de Terras” permitiu ao Estado a venda de espaços agrários a CUSTOS ALTOS. Como as pessoas negras, AGORA LIVRES, poderiam, em condições de precariedade total, cultivar o próprio alimento?
PARA PIORAR A SITUAÇÃO, A LEI PREVIU, MAIS TARDE, SUBSÍDIOS DO GOVERNO À VINDA DE COLONOS EUROPEUS PARA VIVEREM E TRABALHAREM NO BRASIL. O OBJETIVO ERA “BRANQUEAR” A POPULAÇÃO BRASILEIRA.

Se o Brasil já era oficialmente RACISTA porque se dividia entre pessoas LIVRES e ESCRAVOS, agora este RACISMO se aprofundou e tornou-se um país ESTRUTURALMENTE RACISTA.

“Racismo estrutural é a formalização de um conjunto de práticas institucionais, históricas, culturais e interpessoais dentro de uma sociedade que frequentemente coloca um grupo social ou étnico em uma posição melhor para ter sucesso e ao mesmo tempo prejudica outros grupos de modo consistente e constante causando disparidades que se desenvolvem entre grupos ao longo de um período de tempo”. “Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o fato de que há sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras”. No Brasil, manteve-se leis raciais que vinham da escravidão e outras reforçaram e aprofundaram esta discriminação racial que favorece BRANCOS em ralação a negros, indígenas e outras minorias raciais.

Ainda hoje existe racismo?
“Sim. Por mais que as LEIS GARANTAM A IGUALDADE ENTRE OS POVOS, o racismo é um processo histórico que modela a sociedade até hoje. Uma prova disso é o contraste explícito entre o perfil da população brasileira e sua representatividade no Congresso. Enquanto a maior parte dos habitantes é negra (54%), quase todos (96%) os parlamentares são brancos. Outro dado relevante da violência contra a população negra é que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil”.

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, assim como o DIA DO ÍNDIO ou de outras raças e etnias necessariamente deve ser UM DIA de TODOS OS BRASILEIROS E BRASILEIRAS. Não pode ser somente dos NEGROS E NEGRAS e o dia do ÍNDIO, não pode só ser para colocar um cocar ou algumas penas de arara e pintura no rosto de crianças inocentes.

O Brasil precisa com urgência urgentíssima NOVOS QUILOMBOS onde se vive a RESISTÊNCIA e a RESILIÊNCIA; A luta por justiça, igualdade e total igualdade, assim como foi o Quilombo dos Palmares, símbolo maior de muitos outros Quilombos. Nos Quilombos viviam em IGUALDADE e eram ACOLHIDOS os NEGROS E NEGRAS fugitivos, mas também em pé de igualdade, se acolhiam indígenas e brancos explorados e empobrecidos.

PARA ISSO PRECISAMOS DE NOVOS ZUMBIS. É importante o ZUMBI verdadeiro, aquele que embora “livre”, foi capturado e entregue ao padre missionário português Antônio Melo quando tinha aproximadamente seis anos. Batizado “Francisco”, Zumbi recebeu os sacramentos, aprendeu português e latim, e ajudava diariamente na celebração da missa.

Mesmo nessas condições super privilegiadas, se fosse pensar só em si, FUGIU e foi morar e viver no QUILOMBO, onde se tornou o MAIOR LÍDER DA RESISTÊNCIA porque não aceitou o entreguismo do líder anterior – Ganga Zumba – que negociou com o governo português, que traiçoeiramente “OFERECIA A LIBERDADE PARA TODOS OS ESCRAVOS FUGIDOS SE O QUILOMBO SE SUBMETESSE À AUTORIDADE DA COROA PORTUGUESA”.
Diante dessa TRAIÇÃO do líder Ganga, Zumbi rejeitou a proposta do governador português e desafiou a liderança de Ganga Zumba. ZUMBI PROMETEU E CUMPRIU CONTINUAR A RESISTÊNCIA CONTRA A OPRESSÃO PORTUGUESA.

Para tornarmos o Brasil um país que supere o racismo estrutural e social, precisamos de ZUMBIS, isto é, de lideranças que não traiam o povo, especialmente o povo negro, mediante vantagens pessoais.

ENQUANTO NÃO CONSEGUIRMOS VER NO OUTRO E NA OUTRA PESSOA VERDADEIROS IRMÃOS E IRMÃS E NÃO RECONHECERMOS UM ÚNICO PAI COMUM DE ONDE TODA A RAÇA HUMANA PROCEDE, O RACISMO NÃO SERÁ SUPERADO.

“VÓS SOIS TODOS IRMÃOS” Mt 23,8b); “UM SÓ É VOSSO PAI, AQUELE QUE ESTÁ NOS CÉUS” Mt 23,9b).

+ Guilherme Antonio Werlang - Bispo de Lages

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