O rosto da Igreja nos leigos que praticam o Evangelho para o bem comum

Os leigos começaram a ocupar espaços na Igreja já nos anos 1960, quando o Concílio Vaticano II abriu possibilidades

“Cristãos leigos e leigas sujeitos na Igreja e na Sociedade”, é o novo documento da Igreja para o laicato, aprovado na 54ª Assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. No texto, os bispos reafirmam os leigos e as leigas como sujeitos eclesiais e corresponsáveis pela nova evangelização, tanto na Igreja como no mundo.

O objetivo é incentivar a vocação dos batizados, para que façam a diferença no mundo, como Iraci Lopes Dalla Rosa, de 67 anos, natural de Caxambu do Sul, na Diocese de Chapecó. Liderança ativa na diocese, fez o Curso de Teologia para Leigos (CTPL), em 1993, e participou de sete assembleias diocesanas. Além disso, faz parte da equipe de elaboração do material dos grupos de reflexão, desde 1980. Ela foi vereadora e concorreu à prefeitura duas vezes.

— Sou mulher, mãe, avó, educadora, missionária, cidadã, cristã, apaixonada pela vida, pela justiça, pela Palavra de Deus e pela evangelização —, definiu-se.

Ela é o resultado do incentivo que a diocese de Chapecó deu aos leigos, logo após o Concílio Vaticano II (1962-1965). Desde então, eles foram autorizados exercer certos serviços na Igreja. O bispo diocesano, dom Odelir José Magri, contou que o bispo da época, dom José Gomes, “entrou em cheio” nisso.

— Temos uma presença leiga ministerial muito forte. Hoje se fala em 55 mil lideranças, envolvendo todos os serviços e atividades. Mas sempre com este cuidado: desde os anos 60, a capacitação dos leigos —, contou o bispo.

Enquanto a principal formação continua sendo o CTPL, a diocese incrementa o processo com a “preocupação com o cuidado dos cuidadores. Cuidado com a formação espiritual, de uma mística, que ajude esses leigos a viver em primeira pessoa a sua espiritualidade”, explicou dom Magri.

Outra característica importante da diocese é o incentivo à participação dos leigos na sociedade. Nos anos 1970 e 1980 os leigos atuavam mais nos movimentos sociais e sindicatos. Hoje, uma característica forte é a participação nos conselhos de direitos partidários.

— Os grupos de reflexão nas famílias tem sido um ponto forte. Isso facilitou a levar as pessoas a reflexão e discernimento. Isto, em geral, se transforma em ação concreta de reivindicação e de acompanhamento das problemáticas locais —, analisou dom Magri.

Profissionais liberais leigos

Iraci é um exemplo do que dom Irineu Roque Scherer, bispo de Joinville, vislumbra: testemunho na sociedade da mensagem cristã. Para ele, enquanto os leigos tem um espaço consolidado na Igreja, é preciso avançar no lado de fora.

— Sou defensor que existam os conselhos de leigos formados por pessoas que não tenham funções na Igreja e que estejam presentes em diversas áreas, como os profissionais liberais, arquitetos, engenheiros, professores, médicos —, explicou.

Para ele, é momento de leigos “pé no chão” e ao mesmo tempo cristãos praticamentes. Isso poderia levar a evangelização a locais onde ainda não chega. Através do testemunho, os leigos se tornam “artífices de uma mudança neste nosso mundo”.

Em Araquari, na diocese de dom Scherer, Dolores Maria Maçaneiro, 68 anos, que já pensou em ser freira, virou professora. Mesmo assim, manteve-se fiel ao serviço a Deus na Igreja no trabalho pastoral e no profissional. Hoje aposentada, já coordenou o Centro de Bem estar do Menor, antiga Cebem, quando chegou à cidade 36 anos atrás.

Dolores testemunhou um tempo de mudança para os leigos ela é também uma pioneira: tornou-se primeira ministra da Eucaristia de Araquari, junto de um colega, quando a diocese instituiu o serviço, após o concílio.

Com tempo livre, hoje ela dá catequese para adultos e é vice-coordenadora do Conselho de Pastoral Comunitário (CPC).

— O segredo é colocar Deus à frente de tudo. Amanhecer e anoitecer com Ele —, revelou.

Essa presença de Deus na vida de leigos é essencial, segundo o bispo de Rio do Sul, dom Onécimo Alberton. “Em todos os ambientes, o leigo é chamado a ser portador dos valores éticos e morais do evangelho”, indicou.

Professoras, como Dolores, e todos os outros profissionais, devem fazer como Jesus “que assumiu um projeto bem claro e pelo qual não só o teve como causa, mas deu a vida. O cristão é chamado a repetir esse gesto”.

Em Rio do Sul, exemplifica, a formação permanente é coordenada pelos leigos, com apoio dos padres e religiosos. “Já há lugar para o leigo na Igreja, basta ocupar o lugar que já é seu”, avisou.

Caminhada com fé

Quando o cristão não se sente enviado a testemunhar o evangelho fora da Igreja, “é um vacilo” avaliou dom Jacinto Inácio Flach, bispo de Criciúma. “Os leigos precisam ter consciência de que representam a Igreja. Eles poderiam nos representar melhor, apoiados pela Igreja “.

Dom Flach deu como exemplo a iniciativa de professores da Unesc, que realizam, com os alunos, o projeto “Contabilizando Saúde”, uma caminhada de dez quilômetros do campus até o Santuário de Nossa Senhora do Caravagio. Em 2014, a missa no encerramento, celebrada pelo bispo, foi incorporada no programa.

— (O projeto) começou com um professor, que passou a convidar os alunos a caminhar e ter fé. Hoje são mais de vinte professores e quase mil alunos —, disse.

Para o bispo, isto mostra o potencial dos leigos que vivem o batismo. “Nós criticamos a sociedade pelas coisas que não estão bem, mas temos que abençoar e incentivar as pessoas para fazerem o que devem fazer”.

Agente da Pastoral Carcerária em Florianópolis, Bernardo Silva Junior, 47 anos, cita o estatuto da comunidade Abba Pai, que ajudou a fundar: “ao exercer o voluntariado, vamos exercer a misericórdia na prática”. Silva viu o resultado desta misericórdia certa vez, ao encontrar ex-detento em uma missa. Ele conseguira um trabalho, casara e passara a frequentar a Igreja.

Nas visitas aos presos, aos sábados, “estamos ali para viver o Evangelho: estava preso e fostes me visitar”, explicou.

Em seu novo texto, os bispos convidam os leigos a “serem sal na terra e luz no mundo” (Mt 5,13-14) com sujeitos da evangelização. Ao seu modo, Iraci fez uma releitura deste convite, atendido por leigos desde os anos 1960 e que ganha um novo impulso agora, “o papel dos cidadãos e dos cristãos é este: transformar os desertos secos em bosques verdejantes”.

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