Justiça social requer justiça ambiental, diz dom Salm

O presidente do Regional Sul 4 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom João Francisco Salm, disse ontem, 23, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina que representantes de Igrejas, Instituições e homens e mulheres de boa vontade queriam “ecoar na Casa o clamor das pessoas que experimentam as graves, dolorosas e muitas consequências da falta de saneamento”.

De acordo com dom Salm, o clamor vem “dos 100 milhões de brasileiros sem coleta de esgoto, dos 120 milhões sem tratamento de rejeitos domésticos, dos 35 milhões de brasileiros que não tem acesso à água tratada, dos 400 mil brasileiros, a metade crianças de até 5 anos, internados por ano, com diarreia, dos 85% de catarinenses que não tem esgoto sanitário”. O bispo fez as declarações durante a Sessão Especial que homenageou a Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2016 que tem como tema “Casa Comum: Nossa Responsabilidade”.

— Só no Brasil, todos os dias, sete crianças morrem de diarreia. Uma senhora, cidadã brasileira, desabafou: “meus filhos vivem doentes. A gente mora que nem rato, na sujeira grande. Como ter saúde desse jeito? Só milagre” —, citou dom Salm.

A falta de saneamento tem grande impacto na educação das crianças e no trabalho dos adultos. Alunos que vivem em áreas sem saneamento apresentam diferença de 18% no aproveitamento escolar se comparado aos que vivem em áreas saneadas. Os trabalhadores que vivem em áreas sem saneamento faltam 11% mais ao trabalho.

— O acesso ao saneamento promove a inclusão social e a garantia dos principais instrumentos de proteção da qualidade dos recursos hídricos e dos inibidores de doenças, como cólera, febre amarela, chikungunya, dengue, diarreia e zika —, analisou dom Salm.

O bispo de Tubarão baseou-se em fontes como a Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento, Instituto Trata Brasil, Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento e Organização das Nações Unidas.

Resíduos Sólidos

Dom Salm lembrou que até 90% dos cerca de 600 mil catadores de material reciclável, “não participam de qualquer organização coletiva e só conseguem bem menos que um salário-mínimo mensal”. O Brasil perde cerca de R$ 8 bilhões por ano por deixar de reciclar os resíduos.

Cerca de 20 mil toneladas não coletadas de resíduos sólidos são lançadas diariamente nas ruas, nas galerias de águas pluviais ou em cursos d’água. E 80 mil toneladas recebem diariamente destino inadequado. A produção total é de 240.000 toneladas

— Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza, “a solução para a questão dos resíduos sólidos já é amplamente conhecida. Entre as principais estão a eliminação de lixões; a implantação de aterros sanitários; a efetivação de sistemas de coleta seletiva; o estabelecimento de sistemas de logística reversa, com responsabilidade dos produtores; e a viabilização de plantas de recuperação e aproveitamento de resíduos” —, indicou o bispo.

Esgoto

Santa Catarina é um dos estados brasileiros mais deficitários na área do saneamento básico. Possui a sexta pior coleta de esgoto (14,59%) e tem décimo pior tratamento de esgoto (21,35%).

— Causa inquietação saber que menos da metade da população brasileira tem acesso às redes de coleta de esgotos e somente 39% desses esgotos são tratados —, pontuou dom Salm.

Ele asseverou que “é urgente o direito à moradia saudável que inclua proteção contra riscos à saúde e à vida das pessoas com redes de água, saneamento básico, gás e energia elétrica, transporte público, limpeza e localização adequada”.

Moradias inadequadas resultam em um mundo onde apenas 2,5 bilhões têm acesso a banheiros. O Brasil está entre os 20 países onde há menos acesso a eles.

Água

Em seu discurso, dom Salm disse que 35 milhões de brasileiros que não tem acesso à água tratada. No mundo, cerca de 3.5 milhões de pessoas morrem todos os anos por falta de água potável, de saneamento e de condições de higiene

— Pesquisadores destacam que quase 10% das doenças registradas ao redor do mundo poderiam ser evitadas se os governos investissem mais em acesso à água, medidas de higiene e saneamento básico —, indicou.

O presidente do Regional Sul 4 lembrou que no dia 10 de fevereiro deste ano, em Brasília, as entidades que estão à frente dessa campanha afirmaram, em declaração ecumênica, que “o desperdício de água atinge principalmente as pessoas economicamente vulneráveis. É inadmissível que se continue perdendo aproximadamente 40% da água tratada e potável nos sistemas de distribuição”.

Sistemas adequados de drenagem de águas pluviais “também é essencial para a eliminação da presença de águas estagnadas e lamaçais, focos de doenças e poluição de rios e lagos”, apontou.

Campanha

A CFE é um esforço da Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e Igreja Presbiteriana Unida, além da Aliança de Batistas do Brasil, do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular, da Visão Mundial e da Misereor, do Episcopado Alemão.

O objetivo é de “assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e de se empenharem, à luz da fé, em políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum”.

— O que nos une é a preocupação e o cuidado com nossa Casa Comum, o mundo onde vivemos, e a luta pela justiça —, explicou dom Salm.

O Texto-base da Campanha diz que “as responsabilidades são coletivas, porém, diferenciadas (conforme a Rio 92): o poder público tem a tarefa de realizar as obras de infraestrutura, implementar o Plano Municipal de Saneamento Básico, garantir a limpeza do espaço público e fazer a coleta seletiva dos resíduos sólidos. Nós temos a responsabilidade, enquanto cidadãos e cidadãs, de cuidar do espaço onde moramos, de não jogar ‘lixo’ na rua, de zelar pelos bens e espaços coletivos”.

As lideranças das igrejas cristãs, na declaração ecumênica, comprometeram-se em:

  • Estimular nossas igrejas, comunidades eclesiais, organismos ecumênicos a se mobilizarem em favor dos Planos Municipais de Saneamento Básico;
  • Incentivar o consumo responsável dos dons da natureza, em especial da água;
  • Apoiar e fortalecer as mobilizações que têm como objetivo a eliminação de focos de mosquitos transmissores da dengue, da febre chikungunya e do zika;
  • Contribuir para que catadores e catadoras que trabalham na coleta seletiva de resíduos sólidos sejam respeitados e respeitadas como cuidadores e cuidadoras especiais do meio ambiente; entre outras iniciativas.

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