Cricíuma: Pregação de Dom Cláudio sobre desafios do padre em mudança de época

Dom Cláudio fala da importância da presença da Igreja também nas “periferias existenciais”, junto às pessoas desesperadas

Os membros do clero da Diocese de Criciúma participam até esta quinta-feira, 12, de retiro assessorado pelo arcebispo emérito de São Paulo (SP) e também prefeito emérito da Congregação para o Clero (pelo Vaticano), Cardeal Dom Frei Cláudio Hummes.

— Jesus Cristo está no centro do retiro. A mensagem Dele, a pessoa Dele, Morto e Ressuscitado, hoje. Isso dentre um mundo que está em grande mudança, tanto assim, que se costuma já dizer que estamos em um ‘tempo de mudança de época’, uma cultura nova que cada vez mais se torna dominante no mundo; uma cultura de relativismo, de secularização, de laicismo, enfim, de um materialismo prático, de muito subjetivismo. Essa cultura urbana que, sobretudo, através dos meios de comunicação se divulga. É dentro dessa cultura, dessa sociedade, que nós devemos ver o padre, a sua missão, a sua vocação —, destaca dom Cláudio.

Conforme o cardeal, a fé e sua vivência diante das novas realidades do mundo é um dos temas centrais do retiro. “Começo a insistir que, para o padre, nesse mundo que não é mais cristianizado e que não tem mais como referência os valores cristãos, é muito mais exigente viver a sua fé, a sua missão e levar os outros a fé. Por isso, é necessário que ele tenha uma espiritualidade muito mais consistente, mais forte, uma convicção pessoal muito grande, uma relação pessoal forte com Jesus Cristo que é, na verdade, a fé. Porque nós cremos Nele, nós aderimos a Ele, nós O seguimos incondicionalmente. E assim procuramos também transmitir isso para os outros, para que eles também possam encontrar-se com Jesus Cristo, e abrir o seu coração e aderir a Ele. Para isso, Deus convida a cada um, mas o faz, sobretudo, através do ministério do padre”.

O pastor deve ter o “cheiro das ovelhas”

Questionado sobre uma afirmação feita por papa Francisco, no início de seu pontificado, de que o “pastor” deve ter o “cheiro das ovelhas”, dom Cláudio afirma que o padre tem a necessidade de conviver com o povo a si confiado. “Conviver, partilhar a vida do povo, estar próximo, ter compaixão, acolher esse povo. Essa proximidade, esse encontro, o Papa acentua muito. Isso significa que, se você se mistura com o rebanho que lhe foi confiado, você, à noite, volta com o ‘cheiro das ovelhas’. Assim também o padre e o bispo, quando volta para casa deve ter ‘cheiro de ovelha’. Você se ocupou das ovelhas e não de outras coisas”.

O uso da misericórdia

De acordo com o cardeal, esta é um desafio e uma missão pastoral. Segundo ele, o fato de o padre estar junto de seu povo, por si só, é um fator de misericórdia. “Jesus veio mostrar a misericórdia do Pai Celeste por nós e o padre deve continuar a ser isso. Isso significa, portanto, um relacionamento de misericórdia e não de dureza para com o povo. Significa uma atitude de encontro com o povo e não de, simplesmente, do alto não sei de onde comandar o povo. O padre deve ter um coração que chora com o povo, quando o povo está sofrendo; que ri com o povo, quando o povo está feliz e que louva a Deus com o povo, quando o povo louva a Deus. E ele deve conduzir o povo a louvar a Deus. Mas ele está ali no meio como o próprio Jesus Cristo, que quer mostrar ao povo como é o Pai Celeste”.

O exemplo do Papa aos presbíteros

Para dom Cláudio, Papa Francisco tem dado, sem cessar, exemplos de misericórdia e amor para com o próximo. “Ele mesmo vai, abraça o povo. Nós vemos isso nas audiências gerais de quarta-feira, quando ele percorre a Praça de São Pedro com toda aquela gente. Ele desce do carro e vai abraçar as pessoas mais sofridas, ri junto, se alegra junto, mas, sobretudo, ele está atento se tem crianças, aonde tem idosos, aonde tem doentes. Aonde tem gente com problema, ele vai lá. Os abraça, os abençoa, os consola, os conforta, os encoraja. É isso que o padre, segundo ele, deve ser”.

Ir ao encontro, nas periferias

Para ele, “a Igreja deve ir às periferias geográficas, as periferias pobres das nossas cidades, às favelas”. Ele recordou as chamadas “vilas misérias” existentes em Buenos Aires, citadas por Papa Francisco. “É ali que a Igreja deve estar em primeiro lugar”, pontuou.

Dom Cláudio fala da importância da presença da Igreja também nas “periferias existenciais”, junto às pessoas desesperadas, desiludidas, abandonadas, que mesmo podem ter tudo, mas que, no fundo, perderam o sentido da vida. “A essas pessoas, a Igreja tem que ir, não esperar que elas venham. A Igreja, tem que ir aonde está esse povo sofrido, excluído, marginalizado. O Papa insiste muito nisso, que, de fato, me parece ser uma interpretação muito forte de nossa pastoral. A Igreja não pode tornar difícil para as pessoas entrar no reino de Deus, mas ela tem que mostrar que Deus está com a porta aberta.

O povo é convidado. Deus espera que as pessoas venham. A Igreja, portanto, não seja por demasiadamente moralista, fazendo exigências e fazendo com que o povo sinta muito mais como um peso do que como uma libertação, uma alegria, ser cristão. O Papa, muitas vezes, insiste: ‘São todos que nós devemos procurar, não só alguns’. Não basta termos ‘alguns’ nas nossas comunidades. Não! Todos são convidados, todos nós temos que ‘ir’, porque Deus quer todos à sua mesa, um dia”.

Assessoria de Imprensa da Diocese de Criciúma

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