‘Juventude Papa’ vive JMJ com o desafio de mudar o mundo

Na Jornada que teve como lema "Ide e fazei discípulos entre todas as nações", papa pediu uma revolução
Jovens de Criciúma voltam para casa depois de "uma semana inesquecível" (Foto: Marcelo Luiz Zapelini/CNBB Sul 4)

Alexandre, Jaqueline e Corine voltam para casa depois de “uma semana inesquecível” em Jornada que reuniu 3,5 milhões de pessoas (Foto: Marcelo Luiz Zapelini/CNBB Sul 4)

No Aeroporto Internacional Hercílio Luz, às 19h do dia 29, em Florianópolis, peregrinos do “Grupo de Oração Jovem Mensageiros de Salete”, desembarcaram para a última conexão na volta para Criciúma, depois de participarem da JMJ Rio 2013, do dia 23 a 28 de julho. Ao partirem para o Rio de Janeiro, tinham alguns receios, como recepção dos moradores da cidade, pelos transtornos que a movimentação da jornada causaria, mas não foi o que aconteceu.

Para eles, o momento mais especial da Jornada Mundial da Juventude, foi na vigília, quando o Papa Francisco pediu um instante de silêncio e milhões de pessoas silenciaram. Corine Castellan teve um momento ainda mais especial, quando completou aniversário em plena vigília. “Foi um grande presente”, conta a jovem, que recebeu parabéns em diversos idiomas.

Os problemas de mobilidade e da infraestrutura do alojamento, longas filas foram problemas menores para eles. “Quando a gente é servo de Deus, se cansa fisicamente, mas não se importa. “Estavam todos sempre dançando, cantando e brincando”, disse Jaqueline Batista.

Alexandre Taufembach também vê como mal menor os problemas que encontrou, no fim, disse ele, foi “recompensado pelas coisas que valeram à pena”, como a espera de cinco horas para ver o papa, ainda que por vinte segundos.

Eles têm esperança que a JMJ possa atrair mais jovens às comunidades católicas. “Pode ser que muitos jovens se convertam ao verem que na Igreja não é só preparar missa”, disse Alexandre.

Um casal de namorados de outro grupo da mesma diocese tinha desejo parecido ao desembarcar no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, no dia 20. Isabela Bezza Spilere e Lucas Rocha, membros do conselho do grupo “Servos de Deus”, estavam ansiosos pelo início da Jornada.

“Isa” acredita que com a Jornada, a Igreja se abrirá mais para os jovens. “Muitas vezes pensam que o jovem só quer festa, só quer brincadeira, mas não é verdade. Com a grandiosidade que é a JMJ, as dioceses vão dar mais espaço para nós, espero”, avaliou.

O Papa Francisco trouxe para a JMJ o discurso que o marcou desde que foi eleito: ir até os pobres e incluir os excluídos. Para Lucas, isso é uma exigência evangélica. “Ser cristão é também agir. Não só rezar ou ir à missa, mas também ajudar o próximo e praticar a caridade, sempre em comunhão com a Igreja”, disse o jovem.

Ele se referiu ao tema, não apenas com os jovens, mas também junto aos bispos no encontro que teve com o Conselho Episcopal Latino-Americano, no dia 28. “Gosto de dizer que a posição de um discípulo missionário não é de centro, mas de periferia”, afirmou o Papa Francisco. Ele também pediu que os bispos não tenham “psicologia de príncipes”.

O pedido por humildade e serviço, que pairou sobre seus discursos ao longo da JMJ Rio 2013, também reapareceu na missa de encerramento e no encontro com os voluntários no final da tarde do dia 28, no Riocentro. Na ocasião, pediu que os jovens fossem “contra a corrente” e se fosse preciso, “se rebelassem”. Os jovens entenderam e aplaudiram.

Se aplicada à prática, as igrejas locais de todo o mundo devem sofrer mudanças. Haviam bispos e fiéis de mais de 170 nacionalidades, convocados para levarem a mensagem ao mundo, conforme o lema o evento: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações”.

Essa diversidade cultural por si só já era razão de estimulo. Para os três líderes do “Mensageiros de Salete”, vivenciar a experiência de encontrar jovens de países, culturas e idiomas tão diferentes é inesquecível. “Falamos com Chineses, Americanos, Indianos, malvineses” e “conversamos em inglês, espanhol, portunhol, e tudo um pouco”, contou Jaqueline.

Essa emoção não foi privilégio dos jovens. Dom Agostinho Petry, bispo de Rio do Sul, foi cercado por uma multidão enquanto caminhava para o hotel em que estava, na vigília. Todos queriam fotos, bênçãos ou então conversar. “Muito renovador, nunca tinha visto um ambiente assim. Isso aqui é uma mensagem de paz”, disse o bispo, que ficou pelo menos duas horas cercado por peregrinos no calçadão e Copacabana.

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Civilidade

Padre Ederson Iarochevski, da Diocese de Caçador, vê a grande diversidade da Jornada e o convívio foram por si só uma “grande catequese” e “experiência de humanidade” e “testemunho de civilidade”, apesar das dificuldades os peregrinos sempre permaneceram pacíficos.

— Eu achei fantástica a JMJ. No nosso grupo já estamos pensando em fazer a experiência em outro país —, revelou o padre.

O prefeito Eduardo Paes elogiou a postura dos peregrinos e dos próprios munícipes no período da Jornada.

— Mostra o grau de civilidade, organização e respeito dos visitantes e também dos cariocas nessa situação. É algo para refletirmos, sinal de que, quando as pessoas querem, sabem tratar com muito carinho o espaço público. Eu vi cenas de pessoas juntando o lixo para que ele fosse mais facilmente recolhido — destacou o prefeito em entrevista coletiva depois da Jornada.

A organização da JMJ também tentou contribuir para uma coleta mais consciente e espalhou 12 postos de coleta seletiva pela praia. Os trechos de areia que ficavam próximos a estes postos estavam mais limpos do que o resto. O resultado foi que as 345 toneladas de lixo recolhidos representam 9% menos do que a prefeitura recolheu no último réveillon em Copacabana.

O arcebispo de Florianópolis e presidente do Regional Sul 4 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Wilson Tadeu Jonk, chamou a atenção dos jovens para a civilidade em relação a pessoas que pensam diferente da igreja e que é preciso conviver com quem é contrário. “Nunca haverá unanimidade”, declarou o bispo em um dos dias de catequese. Ele alertou sobre os perigos do fundamentalismo religioso e político.

— Precisamos aprender a conviver com o contrário —, disse, e ainda pontuou que é “nesse mundo que precisamos anunciar o evangelho.

Exceto casos isolados, Moradores da cidade, ainda que de outras religiões, não viram a Jornada como um problema. Mesmo em momentos como a disputa por espaços no transporte público com os trabalhadores da cidade foi possível procurar a harmonia. “No metrô, quando houve um princípio de tumulto, alguém puxou a oração da ave-maria, e o vagão todo se acalmou”, contou padre Ederson.

Sandra Regina Rezende, que é da Congregação Cristã no Brasil, não viu a JMJ como um problema e trouxe a cachorra Nina para conhecer a área em que estava construído o palco. “O importante é a fé em Jesus Cristo. Eu fico triste quando alguém fala mal da Jornada”, disse a moradora.

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Peregrinos mostram solidariedade com os que sofrem violência e são assassinados em passeada pela Avenida Atlântica (Foto: Marcelo Luiz Zapelini/CNBB Sul 4)

Solidariedade

Peregrinos foram solidários. Um grupo 40 pessoas da região de Arroio Trinta, SC, não conseguiu retirar o Kit de alimentação para a Vigília, no ponto de entrega, devido à grande demanda da sexta-feira, mas foram ajudados por jovens Haitianos, que repartiram o que tinham para comer. “Eles que precisam tanto de comida, dividiram conosco”, disse padre Eliseu Ozinski. Experiências como essa “resultaram em uma vivência marcante”, avaliou.

Francielly Hellena Camilo, que chegara de Curitiba, PR, no dia 26, tinha pela frente dois dias em que encontrar comida seria difícil, em meio a uma multidão de 3,5 milhões de pessoas.  Mesmo assim, decidiu dividir com seus amigos de Londrina, PR, os itens que Kit que ela recebeu para a vigília. Uma caixa que seria para uma pessoa, alimentou seis.

— E eu vi que todo mundo estava ali com fome e comer sozinha seria muito egoísmo. No fim, ainda sobrou comida. No outro dia no almoço ainda comi e na viagem de volta ainda tinha amendoim — disse a jovem, que ainda conseguiu usar a caixa como um tapete para sentar na areia.

Cerca de 2,5 mil jovens pediram solidariedade, também, a quem sofre com a violência no Brasil. Parte do programa oficial da Jornada, a atividade “Tendas da Juventude”, realizou uma manifestação ao longo de Copacabana, no dia 26, para denunciar a “violência e o extermínio de jovens”. “Juventude tem consciência, está em marcha contra a violência”, foi uma das palavras de ordem.

— Nós precisamos ir além da caridade, como o papa tem dito. Ele tem sido nossa voz, para que a igreja perceba que solidariedade é mais que caridade — disse Thiesco Crisóstomo, secretário nacional da Pastoral da Juventude, uma das entidades que organizou a marcha junto com a Cáritas Brasileira, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e outras organizações.

O princípio de tudo é a fé, o que para o Papa Francisco diferencia a Igreja das ONGs. E por ela, os peregrinos quiseram estar próximos do papa o máximo que pudessem. Grupos viravam a noites em pontos em que o papa passaria ou chegavam logo cedo para garantir os melhores lugares.

Mariane Pamplona, do grupo Emaús de Florianópolis, foi uma das jovens que tiveram a oportunidade de estar próximo do papa quando ele chegou ao Teatro Municipal da terceira-feira, 23, o que era seu objetivo desde que saiu de casa. “Não consigo nem falar, que começo a chorar [chorou enquanto lembrava]. Eu consegui até ver o que tem no anel dele”, contou emocionada.

Franciane Beppler, consagrada a seis anos na “Comunidade de Vida Maria Porta do Céu”, de Brusque, SC, também estava empolgada em ver o Francisco. “Vale à pena tudo isso, é uma graça. Temos que aproveitar esse presente de Deus”, avaliou. Para estarem ali, eles trabalharam o ano todo vendendo rifas e camisetas, o trabalho também rendeu doações voluntárias.

Não foi incomum encontrar peregrinos fazendo confissão em calçadas e nas ruas a caminho dos atos centrais da Jornada. A confissão foi um dos critérios necessários para que se pudesse receber a indulgência plenária, oferecida para quem participasse da Jornada.

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Fiéis não cedem ao frio, e permanecem em vigília toda a madrugada do dia 28 (Foto: Marcelo Luiz Zapelini/CNBB Sul 4)

Fé persistente

A precipitação de água só deu trégua nos dois últimos dias da JMJ, o que não impediu que os peregrinos vivessem a jornada como desejavam. Cerca de mil jovens vicentinos mantiveram sua “Caminhada pela paz” mesmo sob a chuva e frio da noite do dia 26. O clima ruim também desestimulou a chegada de mais de 2 milhões de pessoas ao rio de Janeiro para acompanhar os atos finais da Jornada.

A persistência dos peregrinos foi ressaltada pelo próprio papa durante a vigília. “Estão mostrando que a fé de vocês é mais forte que o frio e a chuva”, disse ao iniciar o ato.

Persistentes também foram os voluntários, que precisaram de muita energia para trabalhar nestes dias cheios dos “perrengues”, como disse a catarinense Valquíria Baptista, que chegou a desanimar a certa altura, mas recuperou-se quando ouviu o Papa lembrar que Deus os “valoriza e sabe o que fizeram”.

Outro catarinense, Murilo Mereiros, de Pescaria Brava, ficou contente fazer parte dos 40 mil voluntários que foram o braço operacional da Jornada Mundial da Juventude. “Para mim é uma grande conquista mudar a realidade de muitos jovens para melhor, através da evangelização e das palavras do Papa”, revelou.

De Lebon Régis, SC, para o cordão de isolamento do Papa Francisco, a voluntária Mayra Pacheco viveu algo inédito o que a motivou a fazer planos para a próxima. “Bora lá aprender a fala polonês, para a jornada na Polônia em 2016”, objetivou.

Os poloneses garantiram que já estão prontos e peregrinos já reservam espaço na agenda, afinal como gritaram a semana toda: “esta é a juventude papa”.

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