ENPJ: A igreja jovem que ama sem medida

Jovens criaram materiais didáticos, celebraram os mártires, discutiram projetos e reafirmaram que são "Igreja Jovem"

Santa Catarina participou de todos os momentos (Foto: Marcelo Luiz Zapelini)

O sinal da cruz que os jovens fizeram uns nos outros com óleo perfumado foi o último ato na celebração de encerramento do 10º Encontro Nacional da Pastoral da Juventude (ENPJ), no sábado (14), mas não da missão, como alertou o anfitrião dom Anuar Battisti, arcebispo de Maringá (PR). A caminhada da Campanha Contra a Violência e o Extermínio de Jovens, realizada logo após, simbolizou essa continuidade.

Antes disso, desde o domingo (08), mais de 600 delegados de 25 estados e do Distrito Federal, durante uma complexa grade de atividades e horários apertados, reafirmaram seu compromisso de ampliar o apoio aos grupos de base, seguir na luta por políticas públicas para os jovens brasileiros e “Ser Igreja Jovem” – tema do encontro.

Adriano de Martini, 25 anos, coordenador nacional da Pastoral da Juventude (CNPJ) por Santa Catarina (CNBB Regional Sul 4), disse à reportagem da Agência Sul 4 de Notícias, que ser Igreja jovem significa ter comprometimento.

– A Pastoral da Juventude (PJ) é uma pastoral, portanto, é parte da Igreja, na qual o jovem deve ser protagonista. Ser Igreja Jovem é também ser Igreja no mundo e mostrar a cara da juventude – explicou.

A ideia é compartilhada pelo arcebispo. Ele disse à reportagem que os grupos de jovens não devem ser apenas grupos de amigos. Para ele, essa pastoral deve assumir compromisso com a Igreja e a sociedade.

– A PJ não pode ficar só no grupo para rezar, para refletir como um grupo de bons amigos. Ela também tem que ser propositiva, na prática da Igreja e na própria sociedade, assumindo compromissos concretos. Eu penso que a militância da Pastoral da Juventude não pode ser uma militância política unicamente, não pode ser uma militância somente religiosa. Ela tem que juntar o aspecto político e religioso, para que o protagonismo do jovem aconteça de fato – analisou o arcebispo.

Um paizão e um vozão

Com essa ideia e sua postura acolhedora, dom Anuar, foi adotado como “paizão” pelos delegados. O arcebispo, que estava sempre entre os jovens, brincou, conversou e até praticou exercícios físicos. Na sexta-feira, ele subiu ao palco do auditório do Centro de Formação Bom Pastor para ensinar os jovens a fazer alongamento.

Em troca, quando o homenagearam no encerramento, ofereceram como presente uma colcha costurada com retalhos, nos quais grupos do país inteiro escreveram os sonhos dos jovens. O Secretário Nacional da Pastoral da Juventude, Francisco Crisóstomo, o Thiesco, responsabilizou o arcebispo pela guarda dos sonhos da juventude até o próximo ENPJ. Este por sua vez, disse que sonho não se deve sonhar sozinho.

– Vou levar esta colcha para o Regional Sul 2 (Paraná) para que todos os bispos a vejam – garantiu ao receber o presente.

Renata Mendes, da CNPJ pelo do Rio de Janeiro (CNBB Leste 1), que coordenou o momento, reforçou a ideia de família.

– Muitas pessoas acham que a PJ está órfã. Não está não. Nós temos um paizão, que é dom Anuar e um vozão, que é dom Sinésio – disse visivelmente emocionada.

Dom Aloísio Sinésio Bohn, bispo emérito da Diocese de Santa Cruz do Sul, é tido como patriarca da PJ porque em 1983 promoveu com padre Hilário Dick o 1º Encontro Nacional de Pastoral de Juventude, na periferia de Brasília (DF). Quando foi convidado por dom Anuar para dividir a homilia da celebração de envio, um jovem gritou: “Aí, vozão!”. É a intimidade entre os “netos” e o “avô”.

Na noite anterior, ele já havia sido homenageado depois da Celebração dos Mártires da Caminhada, nessa ocasião, a assessora nacional da PJ, Raquel Pulita Andrade Silva, lembrou que dom Sinésio sempre foi uma figura presente. Ela contou que, certa vez, dom Sinésio chegou a uma reunião da coordenação regional da Pastoral da Juventude do Rio Grande do Sul (CNBB Regional Sul 3) com um pacote de doces.

– Ele disse assim pra gente, “se eu não posso ajudar vocês, ao menos posso ajudar a ficarem mais doces” – contou.

A celebração emocionou pela história do bispo e pela liturgia. Com as luzes apagadas, os delegados iluminavam a capela com suas velas. “Presente na Caminhada” repetiam a cada vez que um mártir era citado.

A coordenadora diocesana da Pastoral da Juventude de Chapecó, Aline Ogliari, 20 anos, analisa que a celebração mostrou o significado da “entrega, doação, partilha, testemunho e caminhada”.

– Isso reforça o compromisso assumido, tanto para nós mesmos e para as futuras gerações, quanto para honrar e seguir o testemunho de quem tem o sangue derramado na busca do bem comum – analisou a militante.

Para Aline, esse caminho implica em seguir os passos de Jesus Cristo na dinâmica de uma Igreja Jovem.

– Reafirmamos que somos aprendizes desse homem que lutou até o fim, que nos amou até o fim. E como na ciranda da vida o amor é sem medidas, amaremos também até o fim – comentou.

Ela se refere ao tema do encontro – ”Na Ciranda da vida, a nossa missão é amar sem medida” -, que faz referência ao evangelho (Jo 13, 1) e que também serviu de iluminação bíblica ao ENPJ. Segundo o Secretário Regional da Pastoral da Juventude de Santa Catarina, e novo membro da CNPJ, Uilian Dalpiaz, 22 anos, o lema sintetiza o desejo do serviço e do amor-doação ao próximo.

– Somos comunidade, viva e presente, e, enquanto comunidade, desejamos viver a fraternidade, de modo que o grupo de jovens seja sinal de crescimento da amizade, partilha e da edificação de melhores cristãos, unidos na fé e na luta pela construção do Reino – explicou.

Caminhada interrompida

Uma das ações que servem de exemplo disto é “Campanha contra a violência e o extermínio de jovens“, cujo objetivo é estimular o debate sobre todas as formas de violência e desencadear ações que geram paz.

Como reconhecimento do trabalho, em carta enviada ao 10º ENPJ, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, afirma que “neste momento, têm especial relevância as ações da PJ, em conjunto com outras pastorais, contra a violência de que são vítimas os jovens negros em nosso país”.

No entanto, nem sempre a iniciativa é bem recebida. A caminhada no sábado à tarde foi precocemente interrompida pela Prefeitura Municipal de Maringá. Os jovens foram impedidos de seguir o roteiro combinado, que incluía uma parada na sede administrativa do município.

Quando chegaram ao local da apresentação de uma banda formada por integrantes da Pastoral da Juventude de Maringá, a coordenação denunciou o fato. Indignado, um jovem gritou: “calar o direito de expressão do jovem também é uma violência”.

Em protesto pela decisão da prefeitura, a coordenação leu uma passagem do evangelho, na qual o apóstolo João garante que todos são filhos de Deus e que todos devem ser reconhecidos como tal. A canção “Se calarem a voz dos profetas” foi entoada pelos manifestantes que formaram um círculo ao redor das bandeiras dos estados e da Pastoral da Juventude. Eles sentiram-se como profetas calados pelo poder.

Mesmo assim, Gisleyne Anacleto, 24 anos, membro da coordenação arquidiocesana da Pastoral da Juventude de Florianópolis, definiu como “inexplicável” o que sentiu durante a manifestação. Ela ficou especialmente emocionada quando ajudou a levar a Cruz do ENPJ, que seguiu à frente na caminhada.

– No momento que ajudei a carregar a cruz (com a assinatura de todos os delegados) do encontro me senti um pouco responsável pela vida de cada jovem ali presente e pela vida da juventude brasileira – disse.

Levando a boa nova

Outra intervenção na cidade foi a missão, realizada na terça-feira (10). Os delegados visitaram 12 comunidades paroquiais para partilhar realidades que são vivenciadas em todo o Brasil. Além de famílias, as visitas se estenderam ao Hospital do Câncer, a Escola Milton Santos, instituição técnica agrícola que se mantém numa parceria entre a Universidade Federal do Paraná e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e uma Comunidade Terapêutica que acolhe mulheres vitimadas pelo trágico problema da dependência química, a Casa de Nazaré.

Para Kátia Regina Costa, que participa da PJ na Paróquia Nossa Senhora de Fátima de Blumenau (SC), a missão de que participou em uma das comunidades paroquiais representou a unidade na diversidade.

– Acho muito importante evangelizar em todos os cantos. Encantou-me a simplicidade daquele povo, a admiração e o respeito com que nos trataram – disse.

A opinião de Kátia coincide com o que ela ouviria no dia seguinte (11) do padre catarinense Wilson Groh, na mesa de debates sobre os 50 anos do Concilio Vaticano II. Segundo ele, que trabalha em comunidades carentes no centro de Florianópolis, o concílio abriu a possibilidade da Igreja se fazer presente onde ela não está.

– O papel do Vaticano II é se tornar uma luz nesse meio, nessa juventude no mundo rural, no mundo urbano, no mundo da periferia, no mundo universitário, no mundo da classe alta. É levar esse Jesus, para que ele se torne amado, conhecido, admirado, seguido, buscado. E as pessoas desencadearem um papel do Reino (de Deus) – analisou.

Para chegar a estes jovens, a Pastoral da Juventude se apoia em seis projetos “Ajuri”, “Teias da Comunicação”, “Mística e Construção”, “Caminhos de Esperança”, “Tecendo Relações” e “A Juventude quer viver”. Os delegados foram divididos em “comunidades” para refletir e criar propostas de ação para estes projetos. Ao todo, foram 130 propostas.

No caso do projeto “A juventude quer viver”, ao qual estão vinculadas ações como a campanha contra a violência e a intervenção nas Conferências de Juventude, foram 17 propostas. Entre elas, o roteiro de celebração dos mártires e o roteiro para produção de um vídeo para questionar o jovem e a sociedade são os mais interessantes na opinião de André Luiz, 20 anos, colega de Gisleyne na coordenação da PJ em Florianópolis.

– Não poderia haver projeto mais coerente com o projeto ético de sociedade da Pastoral da Juventude, desde Abraão somos convidados a defender a vida acima de tudo. Quanto ao aspecto técnico do projeto, creio que seja também muito feliz – avaliou.

Um encontro complexo

As propostas, depois de analisadas e editadas, serão distribuídas aos grupos de jovens. Apesar da quantidade de materiais produzidos, os delegados que representaram Santa Catarina sentiram falta de tempo para aprofundar mais as discussões.

Na opinião de Felipe Candin, 22 anos, secretário arquidiocesano da Pastoral da Juventude de Florianópolis, foi “gratificante” saber que tantos jovens têm os mesmos anseios, organização e mística, no entanto, considerou que isso poderia ser mais explorado.

– Sinceramente achei que poderíamos aprofundar mais (as discussões) aproveitando tanta diversidade e realidades diferentes. Mas foi bom, mesmo assim, houve muita troca de experiências. Foi riquíssimo – avaliou.

Claudia Hóéckesfeld, 21 anos, membro da Coordenação Diocesana da Pastoral da Juventude de Chapecó, concordou.

– Apesar de haver pouco tempo para pensar junto a partir de tantas realidades diferentes, foi muito bom pensarmos no contexto dos grupos de base. Os que participaram também aprenderam que eles mesmos podem produzir materiais quando há falta.

O tempo apertado foi motivado pelos atrasos constantes na programação. Adriano de Martini explicou que “não é fácil coordenar um evento complexo como este”. Segundo ele, desde a quarta-feira anterior à abertura do ENPJ, houve mais de 30 horas de reuniões que terminavam apenas nas madrugadas.

– Um encontro de um ou dois dias é tranquilo. Mas pense em um encontro como este com tantos dias e com tantas pessoas. Como torná-lo participativo? É bastante complicado. É preciso um bom planejamento e recursos. Mas no geral correu bem, a metodologia e a estrutura funcionaram – analisou.

O encontro impôs jogo de cintura administrativo e metodológico para a coordenação e exigiu um grupo de apoio de 125 jovens divididos em 17 equipes de trabalho. Eles eram de todas as dioceses do Paraná. Santa Catarina ofereceu ajuda nessas equipes. Na equipe de animação, duas das três mulheres eram catarinenses.

O noviço da Congregação dos Josefinos de Murialdo ligado à PJ da Diocese de Criciúma (SC), Rodrigo Szymanski, participou da equipe de refeitório. Para ele, é ótimo estar junto com o povo na construção da civilização do amor.

– É uma alegria servir, melhor ainda é servir quem serve – declarou.

Em agradecimento, a coordenação preparou um esquete (cena cômica) que dramatizou o trabalho duro e cansativo das equipes, apresentado no final da celebração de encerramento. A publicação, lançada no dia anterior, “Somos Igreja Jovem”, que reúne informações sobre a história, mística, projetos identidade da pastoral foi entregue, como retribuição a eles que, segundo a coordenação nacional, “amaram sem medida”.

A celebração também reforçou o tema do encontro. Enquanto Igreja Jovem, eles puxaram palavras de ordem, dançaram, aplaudiram, riram e entoaram canções juntos. Se para a Pastoral da Juventude o amor não tem medida, a luta e a alegria também não, como cantaram na estrofe do hino do 10º Encontro Nacional da Pastoral da Juventude em Maringá: “Eu quero ver / A vida nova florescer / Eu quero ver / Luz do sol um novo dia / Estamos juntos e juntas até o final / Vamos lutando espalhando alegria”.

Reportagem: Marcelo Luiz Zapelini
Edição: Uilian Dalpiaz

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