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Agroecologia: uma opção de vida

Com um desejo muito grande de continuar no campo cultivando a terra, em 1996, eu participei de um curso de agroecologia na cidade de Chapecó. Era um curso de nove dias, dividido em três etapas. Confesso que já na primeira etapa fiquei encantado, pois percebi que outro jeito de fazer agricultura era possível. Aliás, percebi que aquilo que eu estava fazendo não era agricultura. Eu estava açoitando a terra para extrair dela o máximo de produção, que somente servia para atender os interesses do agronegócio, que usurpa de nós não somente o que produzimos, mas o que somos, nossos valores e nossa dignidade.

Ser agricultor é mais do que preparar o solo, plantar e colher. É manter uma relação de bem querença com as obras do Criador.

O projeto da Agroecologia me ensinou muitas coisas. Aprendi a conversar com a terra e sempre que pergunto algo, ela gentilmente me responde. Descobri que não bastava semear de forma agroecológica, era preciso semear a agroecologia para que mais pessoas se engajassem neste projeto de construção de uma sociedade que busque viver de forma sustentável, para que as futuras gerações tenham o direito de viver.

Nestes quatorze anos que eu e minha família estamos produzindo ecologicamente e divulgando a agroecologia, conseguimos avançar muito no processo de construção deste projeto. Dentro da propriedade, o fantástico aumento da fertilidade do solo fez com que os custos de produção se tornassem irrisórios se comparado aos da produção convencional. O equilíbrio biológico também é notado, pois não há mais ataques de pragas e insetos, as plantas crescem sadias e nutridas. Temos qualidade de vida e vida com qualidade.

No campo da organização, não foi pouco o que conquistamos. Somos um núcleo da rede Eco Vida, com doze famílias organizadas, que se reúnem um dia por mês, onde iniciamos os trabalhos do dia com um momento de mística e reflexão para fortalecer a espiritualidade do grupo, seguida por um momento de formação e assuntos de interesse do grupo, buscando novas alternativas.

Hoje é produzido pelas famílias do núcleo: derivados de cana, geleias, vinho, cachaça, sucos, toda linha de panificados, alguns artesanatos e quase todas as famílias são feirantes. Criamos uma cooperativa, adquirimos um moinho colonial de pedra para a fabricação e empacotamento de fubá, um descascador de arroz e construímos um belo centro de comercialização dos produtos da agricultura familiar, na cidade de Pinhalzinho. Mas, acima de tudo, descobrimos o verdadeiro sentido da felicidade.

Ainda estamos atravessando o deserto, mas a certeza da terra prometida nos impulsiona a lutar cada vez mais. Por isso a agroecologia é mais do que uma alternativa viável, ela é uma opção de vida.

Mateus Ogliari, pela coordenação diocesana da CPT Chapecó

Espiritualidade na experiência do contato com a terra

Falar de espiritualidade, em tempos que se presencia o consumismo descontrolado, o meio ambiente sendo destruído, em tempos em que as pessoas vivem numa busca incessante pela satisfação pessoal, espiritual, econômica, busca por algo que preencha o vazio interior e que aos poucos vai contaminando pessoas de todas as classes sociais, idades, sexo, religião, das mais variadas formas, em todas as partes do planeta, e que no meu modo de ver e de pensar, é desafiador.

Falar de espiritualidade neste contexto é preciso ter muita sensibilidade para compreender as diversas e variadas situações e realidades vividas e muito presentes nos dias atuais, no nosso meio.

Falar de espiritualidade em tempos em que mulheres e homens já conseguem perceber que a vida, não apenas a vida humana, mas a vida em toda a sua diversidade e em todas as suas fases de realização precisa ser urgentemente resgatada, cuidada, amada, acolhida, defendida e protegida, também é desafiador.

Tendo presente toda esta complexidade eu me desafiei a partilhar um pouco da minha experiência de espiritualidade no contato com a terra.

Viver a espiritualidade, no contato com a terra nos possibilita experimentar, na prática, o princípio e o sentido de tudo: a Criação.

Viver a espiritualidade, no meu modo de entender, é você conseguir olhar ao seu redor de forma diferente. É olhar e reconhecer a presença da vida em uma simples plantinha em meio a milhões de seres vivos. Reconhecer seu valor ambiental, espiritual, nutritivo, medicinal etc. É compreender que cada ser vivo é obra da Criação, sendo importante e necessário para o ecossistema como um todo.

Viver a espiritualidade, neste contexto, é garantir que os alimentos sejam produzidos ecologicamente corretos. Livres de produtos químicos e da exploração de mão de obra, proporcionando a qualidade dos produtos e a consequente qualidade de vida.

Acredito ser possível viver a espiritualidade através da experiência de um agricultor ou uma agricultora que cultiva e trabalha a terra, que interage com as pessoas em feiras e nos mais diversos espaços de comercialização, dos seus produtos, desde que o princípio seja o da economia solidária.

Pois alguém que se propõe a cultivar a terra, tirar da terra o seu sustento e dos seus, nos dias de hoje, precisa ter consciência de que não é tão somente ter o acesso à terra, mas é viver e trabalhar de acordo com os princípios pelo o qual a terra foi criada e colocada à nossa disposição. “A terra é dom de Deus.” (Ex 23,14), é “herança” (Dt. 12,10).

Espiritualidade é conseguir perceber o milagre da vida acontecendo no processo de germinação da semente.

Para concluir, espiritualidade é um processo de auto-conhecimento é uma experiência pessoal, íntima e, portanto, diferente para cada um de nós. É algo que, embora extraordinário, pode ser vivido através dos momentos mais comuns de nossas vidas.

Ana Maria Vendrami, CPT Microrregião de Rio do Sul.

LIMITAR A PROPRIEDADE EM DEFESA DA VIDA DA JUVENTUDE

Renato Munhoz, especialista em Adolecência e Juventude e membro da Equipe do Plebiscito Popular pelo Limite da Terra no Paraná, afirma “a necessidade de focalizarmos sempre mais o campo como espaço de vida. A pequena propriedade deverá ser valorizada, para que nossas vulnerabilidades sociais em relação à juventude sejam superadas. É preciso investir em políticas públicas para que nossos filhos e filhas consigam sempre mais permanecer no campo, não como sujeitos isolados, mas com acesso a mecanismos importantes como educação, saúde, lazer, entre outros.”

Veja o artigo completo www.limitedaterra.org.br

O Bispo e a Candidata

Roberto Malvezzi (Gogó)

A Igreja da América Latina mudou muito desde a Conferência Episcopal de Medellín, em 1968. Ali aconteceu a tomada de posição em favor dos pobres do continente, com todos os desdobramentos experimentados nas últimas décadas.

Mais que construir uma outra doutrina social, os bispos levaram a sério a “evangelização integral, em todas as suas dimensões, inclusive a social”. A integração entre fé e vida passou a ser uma expressão cotidiana de grande parte dos cristãos do continente. Em 1975 o Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, incorpora definitivamente a dimensão social como essencial da própria evangelização.

Mesmo em anos mais recentes, quando houve grande recuo nessa linha de evangelização, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, tem feito declarações em momentos eleitorais, normalmente de forma genérica, mais em forma de princípios, para que os cristãos sejam responsáveis ao votar. Aí estão incluídas as dimensões mais próprias do mundo político, como a ética no trato do bem público, a ficha limpa do candidato, sua preocupação com a justiça social, a educação, a saúde e as populações mais pobres. Os documentos do episcopado não citam nomes, não execram publicamente nenhuma pessoa.

Por isso, é absolutamente fora dos padrões eclesiais a declaração do bispo de Guarulhos pedindo que os cristãos de sua diocese não votem em Dilma Roussef, por seu pressuposto apoio ao aborto.

O bispo erra em vários pontos. Primeiro, porque é uma atitude eclesialmente isolada. Nem sua aparente postura de defensor da vida  lhe dá credibilidade.

Segundo, é uma leitura politicamente equivocada. A decisão sobre o aborto passa pelo Legislativo, não pelo Executivo. Há parlamentares favoráveis ao aborto em todos os partidos, assim como há contra. Portanto, não é exclusividade do partido de Dilma. Se é de citar um nome, que fossem citados todos. No fundo apenas revela sua opção eleitoral para o mês de outubro e seu preconceito contra a candidata e seu partido.

Terceiro, seria bom respeitar a opinião da própria pessoa, que já disse não ser favorável à descriminalização do aborto.

Por fim, seria melhor exigir de Dilma, como de todos os outros, a defesa da comunidade inteira da vida, ameaçada pela fome, pela sede, pelo Aquecimento Global. Seria bom ver também a dimensão da educação, da saúde, do acesso à água, ao saneamento, a implantação da reforma agrária e tantos outros consensos já existentes no episcopado.

Hoje há um enorme desencanto da população com a política, particularmente da juventude. Parece um fato repetitivo, sem capacidade de provocar mudanças. Se formos reduzir as preocupações da eleição à vida uterina, maior será seu desencanto.

EM DEFESA DO MEIO AMBIENTE BRASILEIRO E DA PRODUÇÃO DE ALIMENTOS SAUDÁVEIS: NÃO AO SUBSTITUTIVO DO CÓDIGO FLORESTAL!

No último dia 09 de junho de 2010, o Dep. Federal Aldo Rebelo (PCdoB/SP) apresentou o seu relatório à Comissão Especial, criada na Câmara dos Deputados, para analisar o Projeto de Lei nº. 1876/99 e outras propostas de mudanças no Código Florestal e na Legislação Ambiental brasileira. O referido relatório, de mais de 250 páginas, apresenta a proposta de substituição do Código Florestal (Lei nº. 4.771, de 15 de setembro de 1965).

Apesar de ser de 1965, o Código Florestal é bastante atual, pois está baseado em uma série de princípios que respondem às principais preocupações em torno do uso sustentável do meio ambiente.

Nesse sentido, as entidades populares, agrárias e ambientalistas, reconhecendo a necessidade de atualizar as leis, sempre defenderam o aperfeiçoamento do Código Florestal, especialmente para  adequá-lo à realidade da agricultura familiar e camponesa. Há a concreta necessidade de se criar regulamentações que possibilitem ao Código atender às especificidades da agricultura familiar. Além disto, é essencial uma série de políticas públicas de fomento, crédito, assistência técnica, agroindustrialização e comercialização, as quais garantirão o uso sustentável das áreas de reserva legal e proteção permanente.

Estas mudanças, no entanto, são muito distintas das propostas no Projeto de Lei (PL). Isso porque, segundo cálculos de algumas entidades da área ambiental, a aplicação do mesmo resultará na emissão entre 25 bilhões a 30 bilhões de toneladas de gás carbônico só na Amazônia. Isso representa em torno de seis vezes a redução estimada de emissões por desmatamento que o Brasil estabeleceu como meta. Consequentemente, esta emissão impediria o país de cumprir esta meta assumida na conferência do clima de Copenhague.

Podemos afirmar que todo o texto do Projeto de Lei  é insatisfatório, privilegiando exclusivamente os desejos das forças mais arcaicas do Brasil: os latifundiários. Dentre os principais pontos crítico do PL, podemos citar:: anistia completa aos desmatadores; a abolição da Reserva Legal para agricultura familiar; a possibilidade de compensação desta Reserva fora da região ou da bacia hidrográfica; e a transferência do arbítrio ambiental para os Estados e Municípios.

Primeiro, de acordo com o substitutivo, a responsabilidade de regulamentação ambiental passará para os estados. É fundamental entendermos que os biomas e rios não estão restritos aos limites de um ou dois Estados, portanto, não é possível pensar em leis estaduais distintas capazes de garantir a preservação dos mesmos. Por outro lado, esta estadualização representa, na prática, uma flexibilização da legislação, pois segundo o próprio texto, há a possibilidade de redução das áreas de Preservação Permanentes em até a metade se o estado assim o entender.

Em segundo lugar, o Projeto acaba por anistiar todos os produtores rurais que cometeram crimes ambientais até 22 de julho de 2008. Os desmatadores que descumpriram o Código Florestal terão cinco (5) para se ajustar à nova legislação, sendo que os mesmos não poderão ser multados neste período de moratória e ficam também cancelados embargos e termos de compromisso assinados por produtores rurais por derrubadas ilegais. A recuperação dessas áreas deverá ser feita no longínquo prazo de 30 anos!

Em terceiro lugar, o Projeto desobriga a manutenção de Reserva Legal para propriedades até quatro (4) módulos fiscais, as quais representam em torno de 90% dos imóveis rurais no Brasil. Essa isenção significa, por exemplo, que imóveis de até 400 hectares podem ser totalmente desmatados na Amazônia – já que cada módulo fiscal tem 100 hectares na região –, o que poderá representar o desmatamento de aproximadamente 85 milhões de hectares. É fundamental entendermos que a Constituição Federal estabeleceu a Reserva Legal a partir do princípio de que florestas, o meio ambiente e o patrimônio genético são interesses difusos, pertencente ao mesmo tempo a todos e a cada cidadão brasileiro indistintamente. E é fundamental ter claro que nenhum movimento social do campo apresentou como proposta essa abolição da RL, sempre discutindo sobre a redução de seu tamanho (percentagem da área total, principalmente na Amazônia) ou sobre formas sustentáveis de exploração e sistemas simplificados de autorização para essa atividade.

Ainda sobre a Reserva Legal, o texto estabelece que, nos casos em que a mesma deve ser mantida, a compensação poderá ser feita fora da região ou bacia hidrográfica. Além disso, esta recomposição poderá ser feita por meio do plantio de espécies exóticas. Isso significa que a supressão de vegetação nativa pode ser compensada, por exemplo, por monoculturas de eucaliptos, pinus, ou qualquer outra espécie, descaracterizando o bioma e empobrecendo a biodiversidade.

O Projeto de Lei traz ainda uma conseqüência nefasta, ou seja, a anistia dos desmatadores ou a isenção em respeitar o mínimo florestal por propriedade, destrói a possibilidade de desapropriação daquelas propriedades que não cumprem a sua função ambiental ou sócio-ambiental, conforme preceitua a Constituição Federal em seu art. 186, II.

Em um momento onde toda a humanidade está consciente da crise ambiental planetária e lutando por mudanças concretas na postura dos países, onde o próprio Brasil assume uma posição de defesa das questões ecológicas nacionais e globais, é totalmente inadimissível que retrocedamos em uma legislação tão importante como o Código Florestal. É inaceitável que uma legislação de 1965 seja mais moderna, ética e preocupada com o futuro da sociedade brasileira do que uma proposta de 2010.

A proposta do deputado Aldo Rebelo atenta violentamente contra a sua história de engajamento e dedicação às questões da sociedade brasileira. Ao defender um falso nacionalismo, o senhor deputado entrega as florestas brasileiras aos grandes latifundiários e à expansão desenfreada do agronegócio. Ao buscar combater supostas influencias de ONGs internacionais, se esquece que na realidade que é internacional é o agronegócio brasileiro, subordinado ao capital financeiro estrangeiro e às transnacionais do setor agropecurário e agroquímico. A sua postura em defesa do agronegócio o coloca imediatamente contrário à agricultura camponesa e familiar, a qual diz defender.

Por isso, nós, intelectuais, artistas e organizações sociais abaixo-assinadas, exigimos a total rejeição do Projeto de Lei de autoria do deputado Aldo Rebelo.

VIA CAMPESINA

MST – MOVIMENTO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS SEM TERRA

MPA – MOVIMENTO DOS PEQUENOS AGRICULTORES

MMC – MOVIMENTO DAS MULHERES CAMPONESAS

FETRAF – FEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA FAMILIAR

CIMI – CENTRO INDIGENÍSTA MISSIONÁRIO

CPT – COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

CNASI – CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE ASSOCIAÇÕES DOS SERVIDORES DO INCRA

Pedimos sua urgente adesão a este manifesto, escrevendo para Luiz Zarref: zarref@gmail.com

Cochabamba: cores, povos e esperanças

No final de abril, representantes de mais de cem países foram à Bolívia atender uma convocação do presidente daquele país, Evo Morales, para um debate mundial sobre o clima e a natureza. Na cidade de Cochabamba realizou-se a Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas e Direitos da Mãe Terra. A conferência foi uma resposta de governos e organizações sociais que ao grande fracasso das negociações por um acordo em Copenhague, em dezembro de 2009, quando o mundo viu naufragar a COP-15 e, com ela, a chance de um acordo que desde já combatesse de maneira mais efetiva o aquecimento do planeta. Já sabemos que as mudanças climáticas são sim provocadas, em grande parte, pela ação humana sobre o ambiente. E sabemos, cada dia com mais dor e preocupação, que seus efeitos serão sempre difíceis de lidar. Assim, cabe ao movimento que se intensifica a cada dia uma posição mais enfática em favor de um novo rumo. Este foi o propósito da conferência de Cochabamba, à qual compareceu a técnica da Fase e representantes da Rede Brasileira pela Integração dos Povos Maureen Santos, que oferece este relato.  Maureen representa a FASE no Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social.

Maureen Santos

Na semana de 19 de abril teve início a Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas e Direitos da Mãe Terra, em Cochabamba, na Bolívia. Com uma ampla convocação, incluindo governos e sociedade civil, contou com a participação de mais de 35 mil pessoas, sendo 48 governos e representantes de diversos segmentos sociais de 130 países, desde organizações camponesas e povos tradicionais a ONGs, redes, sindicatos, juventude e movimentos sociais, com destaque para as nações indígenas que levaram todo seu clamor e força para a Conferência.

Quem lá esteve pôde sentir toda esta diversidade, demonstrada nos calorosos debates nos grupos de trabalho e na mesa 18, nos espaços de merenda e de atividades culturais, nas místicas, nas oficinas, nas plenárias oficiais. Estava tudo lá, ao mesmo tempo. Talvez tenha faltado uma marcha, que com certeza demonstraria toda aquela força pulsante reunida em torno da temática do clima e levaria ainda mais cores e esperanças para as lutas sociais e para os povos do mundo.

Frente ao fracasso do que foi Copenhague, do ponto de vista de gerar propostas concretas para frear o aquecimento global e, portanto, as mudanças climáticas, a Conferência de Cochabamba saiu com um saldo bastante positivo e nos levou a refletir sobre a crise dos espaços multilaterais existentes. A metodologia dos grupos de trabalho funcionou, de maneira geral, e os resultados foram muito expressivos como em florestas, adaptação, financiamento, perigos do mercado de carbono, agricultura e soberania alimentar e direitos da Mãe Terra, que problematizaram os temas, apontando soluções concretas e trazendo alternativas. A declaração final chamada Acordo de los Pueblos apontou algumas destas propostas, mas por ter que se limitar a um número reduzido de páginas, não representa toda a riqueza dos resultados dos grupos, por isso vale a pena uma leitura atenta de cada documento.

As alternativas já valeriam por toda Conferência, pois parte dos entraves presentes no dia-a-dia das lutas sociais estão na dificuldade em unificar para além da resistência e isso foi possível graças à possibilidade de se juntar para debater, propor, trocar experiências, discordar, concordar. E assim, abriu-se um precedente importante para um caminho futuro: o sentimento de que as convergências são possíveis, que os movimentos e organizações sociais podem avançar ainda mais na luta contra este modelo usurpador de vidas, sonhos, conhecimentos tradicionais e da natureza.

Aliás, este foi um dos grandes temas da Conferência, de que a Mãe Terra tem seus direitos, de que nós fazemos parte dela, e não de que ela está disponível para nos servir. Alberto Acosta, em seu artigo “Hacia la Declaración Universal de los Derechos de Naturaleza” sintetiza bem esta idéia ao falar sobre a necessidade de resgatar as dimensões da sustentabilidade, exigindo uma nova ética de organização da vida e para isso, os objetivos econômicos devem estar subordinados à leis de funcionamento dos sistemas naturais. Os direitos da Mãe Terra são uma contribuição fundamental da Cosmovisão indígena e do Bem Viver, que nos trazem diversos desafios no sentido de como estender esta visão para além da América Latina e relacionar com o debate sobre as cidades.

O debate sobre o Referendum vai neste mesmo caminho, pois o mesmo é um instrumento importantíssimo de conquistas e lutas na América Latina e na Europa, mas como estender este modelo para regiões que não têm a cultura política de utilização deste mecanismo? Para pensar o mundo é preciso ter em mente a diversidade que isso implica e ter esta preocupação sempre presente no desenrolar das propostas e ações.

Foi positivo ver governos presentes nas plenárias, assistindo e escutando o que as organizações sociais tinham a dizer e a participação de representantes da sociedade civil na leitura dos resultados dos grupos de trabalho durante a atividade com os Chefes de Estado e representantes de governos. Porém, a participação dos governos convidados poderia ter sido mais eficiente, com mais disposição para o diálogo durante os debates e mais efetivamente nos grupos de trabalho. No caso brasileiro, apesar da presença de um Embaixador, a participação do governo poderia ter sido muito mais efetiva.

Saímos de Cochabamba com muitas tarefas, entre elas pressionar nacionalmente para que os resultados da Conferência possam ser incorporados por nossos governos em seu posicionamento nas negociações e nas legislações nacionais e não deixar para que a pressão seja feita somente na COP 16, em Cancun, México. Não nos resta dúvida de que há um longo caminho pela frente, mas temos a esperança renovada.

Nota do MST sobre prisões de líderes em Imbituba

O MST é um movimento que luta, há décadas, por um modelo de desenvolvimento agrícola que valoriza o meio ambiente, o respeito à vida e à dignidade de homens e mulheres que trabalham no campo. Entre nossos principais posicionamentos estão a defesa da agricultura familiar e camponesa, a luta contra os latifúndios improdutivos e a defesa de diversas populações contra a retirada sistemática, e muitas vezes violenta, de trabalhadores e trabalhadoras de suas terras e de suas casas, em nome de um modelo que somente privilegia grandes empresas e latifundiários.

A prisão de homens e mulheres ligados ao MST, quando realizavam uma reunião com integrantes da comunidade, em Imbituba, demonstra uma faceta controversa do Estado, do poder policial e de uma parcela do judiciário. Estas pessoas foram detidas mesmo sem cometer qualquer crime, apenas pelo fato de trabalharem junto às famílias no esclarecimento de seus direitos enquanto cidadãos e cidadãs.

Como ocorreu em dezenas de ocasiões com trabalhadores e trabalhadoras rurais, uma comunidade inteira está sendo despejada em Imbituba. A acusação de “formação de quadrilha”, um verdadeiro descalabro, não encontra qualquer respaldo, uma vez que é pública e notória a preocupação do MST com a situação das famílias daquela região, que vem sistematicamente sendo obrigadas a abandonar a zona rural em função da falta de apoio à agricultura familiar. Em outra frente, o agronegócio recebe generosa ajuda governamental.

A reunião na qual estava Altair Lavratti justamente discutia esta situação em uma reunião pública e levava a solidariedade do movimento às famílias que seguem sendo despejadas de suas terras, ações que fazem parte do cotidiano do MST.

O MST, como já ocorreu com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), é vítima de uma ação orquestrada que utiliza como artifício a prisão “preventiva” por “suspeita de invasão”. Para a polícia e para o poder público, pelo que se entende a partir desta ação, reuniões que envolvam sindicalistas e lutadores sociais passam a ser “suspeitas” e, sendo assim, são passíveis de interrupção e prisão.

Enquanto o mundo condena a retirada de garantias individuais “preventivamente”, o Poder Público de Santa Catarina iguala-se aos países mais atrasados e trata como criminosas pessoas que apenas defendem um modelo diferente de desenvolvimento, que valoriza o respeito à vida, a dignidade, a liberdade e maior igualdade. O tipo de ação orquestrada em Imbituba é muito semelhante à adotada pelos Estados Unidos, depois de 11 de setembro, quando o presidente George Bush acabou com todas as garantias individuais dos cidadãos. Lá, e agora também aqui, o estado pode considerar suspeita qualquer tipo de reunião que envolva seres humanos. Conversar e organizar, por uma vida melhor, passa a ser coisa de “bandido”.

Para o MST, as prisões são descabidas e só refletem a forma autoritária como o governo de Santa Catarina conduz a relação com os movimentos sociais, criminalizando as tentativas dos catarinenses de debater e propor um modelo de desenvolvimento que contrapõe a visão do atual governo.

Os 140 assentamentos da reforma agrária de Santa Catarina, TODOS FRUTOS DA LUTA DO MST, respondem por mais de 60 cooperativas, agroindústrias familiares e empreendimentos de autogestão. Periodicamente o Movimento presta cntas à sociedade, mostrando suas diversas iniciativas produtivas e como o modelo de desenvolvimento defendido pelo MST é viável, aumenta a qualidade de vida e a inclusão social de homens e mulheres, do campo e da cidade. |

Defendemos a reforma agrária por entender que ela representa vida digna no meio rural e mais benefícios a todas pessoas. Estamos mostrando que esse modelo é viável e que ajuda a sociedade.

A diversificação da produção nos assentamentos é a demonstração, na prática, dos números apresentados pelo Censo do IBGE, que mapeou a agricultura brasileira nesta segunda metade da década. Conforme o estudo, a agricultura familiar e camponesa produz mais e melhor, em uma área muito menor do que o agronegócio.

O leite Terra Viva, produzido por cooperativas do MST, é um dos principais exemplos do sucesso da reforma agrária. Diariamente ele chega à mesa de mais de 1,5 milhão de pessoas na região Sul e em São Paulo.

Tudo isso assusta aqueles que querem a continuidade de um modelo que privilegia poucos, em detrimento da vida de muitos.

CONTATO: (48) 3028-1608 / 9901-1154 / 8465-6138

Curso de Formação de Promotoras Legais Populares

Convite

Missão…método…método…missão: o jeito de fazer – jeito de quem foi enviado.

Caminhar com o Povo do Campo para o Exílio, dentro do seu próprio país …

Proclamar a traição política da categoria camponesa …

Testemunhar como este mesmo Povo foi abandonado por uma Igreja instituição ….

“C” como em Caminhar … Comissão:

Nasci no sítio. Vivi no sítio – Proclamação. Agora mora na rua – Declaração. Mas o sítio é melhor – Confissão.

Proclamação de vida. Declaração de morte. Confissão de sonho frustrado.

É com este Povo que caminhamos.

“P” como em Protestar … Pastoral:

Camponês, Camponesa: cabra marcada para morrer.

O avanço do modelo monocultivo… o silêncio das sombrias paisagens de soja, eucalipto, cana … tudo tranqüilo na frente agrícola agrotoxicada, alcoolizada.

O sumiço da mesa farta, prato cheio da Soberania Alimentar: confiscada.

O contato com a terra: perdido … Reforma Agrária: traída.

“T” como em Testemunhar … Terra:

E ninguém falou contra? (assim, os netos, bis-netos de quem foi emprestada a Terra).

Falou, falou sim.

Falou, fazendo

com o sangue da co-missão dos mártires

com o suor da pastoral de “ir uma milha a mais”

com as lágrimas da terra, concentrada nas mãos de poucos

“Como cantar …?” (salmo 137)

“Por que me abandonaste …?” (Marcos 15:34)

“Tiquinho de nada ….” (Isaías 38:30 …)

 

Tiago Thorlby – CPT-PE.

Véspera de Oito de Outubro, 2009

Retomada a animação da 21ª Romaria da Terra e da Água em SC

Fonte: www.dioceseblumenau.com.br

Transferida para o próximo dia 15 de novembro, a 21ª Romaria da Terra e da Água de SC foi retomada em reunião de lideranças eclesiais e de movimentos sociais, realizada na Cúria Diocesana de Blumenau, no dia 05 de outubro.

Ao todo, eram vinte pessoas reunidas, entre sacerdotes, diáconos, religiosas, responsáveis pelas Pastorais Sociais de SC, representantes de entidades eclesiais e de movimentos sociais, provindos da Diocese de Blumenau e de todo o estado catarinense.
Começou por ali a reanimação do projeto da Igreja em SC. Responsabilidades foram reassumidas. Programação foi revisada e atualizada. Tudo está se encaminhando para que a Romaria aconteça da melhor forma possível.
Para isso, é indispensável que todas as Dioceses do nosso Estado se coloquem em ritmo de nova preparação. Passada a ameaça da gripe A, os cuidados com a saúde e a segurança dos romeiros e romeiras, em todos os seus aspectos, não seja descuidada. Também a equipe de organização, no seu planejamento,  tem muito presente este importante setor da grande concentração. Mas muito mais importante, com certeza, será estarmos convencidos de que vamos fazer juntos este projeto evangelizador, diante do qual nenhuma pessoa de fé ou ansiosa por um mundo melhor, poderá eximir-se.
A novidade que surgiu na mesma reunião foi um plano b, alternativo, no dia da Romaria, se qualquer obstáculo significativo surgir e impossibilitar o trânsito até o local previsto. O Evento ou parte dele poderia, assim, ser realizado numa comunidade ao lado da BR, na Capela Cristo Rei, Baú Baixo, no mesmo município de Ilhota.
Então, motivados pelo tema: “Cuidar da Terra e da Água é cuidar da Vida”, que, neste momento histórico em que vivemos, apresenta-se como verdadeiro grito de socorro do planeta e da humanidade , recomecemos juntos a caminhada rumo a uma participada, animada, vigorosa, e quissá, bem sucedida, frutuosa, 21ª Romaria da Terra e da Água em nosso amado Estado de SC.